...

Campina Grande - PB

O Cristo dos ramos

08/04/2017 às 11:41

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis Pereira

Este Domingo de Ramos se converte, para os cristãos católicos, na porta de entrada à Semana mais Santa de todas, aquela na qual rememoramos os gestos e as palavras de Jesus em seu ato definitivo de dar sua vida para dar-nos a Vida Nova.

As portas de Jerusalém se abrem para que Jesus entre na Cidade Santa, para que possa cumprir ali sua Páscoa, a Páscoa que nos salva. O que a imagem de Jesus tão humilde, montado num jumentinho, entrando em Jerusalém quer dizer a este mundo de tanta tecnologia, de tanto poder e prepotência, de tanta violência e terrorismos?

Os ramos de oliveira e de palmeira agitados pela multidão ao passar Jesus, o único rei que pode dar a paz; as vestes estendidas no caminho; gestos oferecidos com generosidade como corações dispostos a recebê-lo, poderiam ser sinais autênticos de um mundo que igual a “Sião”, ainda busca encontrar a paz, a verdade e a justiça na mensagem de Jesus de Nazaré.

São Mateus nos narra em seu evangelho (cf. Mt 21,1-11) uma só visita de Jesus a Jerusalém e a coloca como o centro de toda sua atividade evangelizadora e manifestação do verdadeiro messianismo de Jesus. A humilde figura de Jesus contrasta enormemente com os gritos de alegria proclamando-o como “o filho de Davi, o que vem em nome do Senhor”. Todas as expectativas que sinalizavam para o Messias como um rei poderoso e forte, que com espada e lança libertaria Israel de todos seus inimigos se veem ridicularizadas quando Jesus se apresenta “montado em um jumentinho”. E se por um lado a multidão se anima manifestando-lhe que vem “seu rei” que lhe trará a paz, por outro lado toda a humildade e simplicidade com que Jesus entra em Jerusalém manifestam o verdadeiro caminho da paz. Jesus oferece uma manifestação de sua condição de Rei-Messias, não com o ar triunfal dos vencedores, mas sim com a simplicidade do que vem para servir a seu povo.

A entrada de Jesus em Jerusalém e a entrada de Jesus em nossa história são em si mesmas questionadoras sobre o que significa sua presença e sua missão no meio da humanidade: Como estamos construindo a paz? A base de guerras, ameaças, retaliações ou vinganças? Ou a fazemos a partir do interior, do serviço e da recuperação do valor da pessoa humana?

O Cristo dos Ramos e os “hosanas” de júbilo parecem irreconciliavelmente contraditórios e paradoxais. O Domingo de Ramos se nos apresenta como um dia pleno de contrastes, luzes e sombras, de um sabor agridoce. Em um momento nossas ruas se enchem com os gritos: “Viva Cristo Rei! hosana ao Filho de Davi!”, e momentos depois ressoam em nossas igrejas as trágicas palavras da Paixão segundo Mateus (cf. Mt 26,17 – 27, 66) e se vão sucedendo, passo a passo, a entrega, o beijo da traição de Judas, a negação de Pedro, os gritos da multidão: “é réu de morte, seja crucificado!”, as aclamações irônicas dos soldados: “Salve o rei dos Judeus!”, as pessoas que passavam o insultavam dizendo: “Salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!”, do mesmo modo, os sumos sacerdotes, junto com os mestres da Lei e os anciãos, também zombavam de Jesus: “A outros salvou… e a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel… desça agora da cruz!”, e até os ladrões que foram crucificados com ele o insultavam… até a última exclamação na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” e dando um forte grito, Jesus expirou.

O relato da Paixão de Jesus, segundo Mateus, é uma história de amores e desamores, de fidelidades e infidelidades, e sua morte é a melhor expressão de um amor total, prolongado até o final de sua vida. É a dolorosa realidade que cada dia se faz presente em nossas vidas. Por um lado se elogia e se exalta uma pessoa e por outro a despreza, tortura-a e a aniquila. Escutamos a proclamação dos direitos humanos, a exaltação ao respeito e à igualdade da mulher, se defende apaixonadamente às crianças e aos pobres, e os noticiários ao mesmo tempo dão conta de abusos, pornografia, violações, sequestros, tráfico de pessoas e execução sumária até de inocentes. É a paixão de Jesus vivida cada dia na pessoa de cada homem e cada mulher.

Realidade humana vivida por Jesus que toma o rosto e a dor de cada ser humano e que o assume para resgatá-lo, para dar-lhe seu verdadeiro significado, para levá-lo à verdadeira liberdade, para além das expectativas meramente humanas e econômicas. Os acontecimentos vividos naqueles dias, nessa semana santa, não é história do passado, trata-se de uma espécie de profecia antecipada de tudo o que ocorre sempre no mundo e em nossa história. Nosso mundo está cheio de milhões de cruzes, de uma multidão de vitimas da injustiça, da violência, das fronteiras físicas e mentais, da falta de amor… O que ama sofre e o que não ama faz sofrer e maquinar calvários e infernos.

O cenário não tem muita importância. Todas as situações de nossa vida refletem a Paixão: sempre se encontrará no centro uma pessoa, um homem, Cristo-hoje, vítima da injustiça, da solidão, da traição, da indiferença, do preconceito e da ausência de amor. E sempre os atores serão os mesmos, talvez com alguma pequena diferença, o Herodes que condena, o Pilatos que lava as mãos, o Pedro que nega o amigo por medo, os companheiros discípulos que fogem, Judas e o beijo traidor… a multidão que igualmente em um momento louva e exalta e em outro, zomba, condena e insulta.

Mas, há uma possibilidade de mudar um pouco os papéis. Podemos encontrar a um Pilatos que alguma vez não lave as mãos, ou a um Herodes que realmente busque a justiça; a um Pedro que não negue o seu amigo, mas que diga com toda clareza: “Sim eu o conheço, é meu amigo!”; a uns discípulos que vencendo seus medos, não fujam covardemente, mas, fiquem firmes na luta contra a injustiça. Sim, hoje temos possibilidade de mudar o texto… com nossa vida.

Domingo de Ramos, Semana Santa… é a história de Cristo encarnado na humanidade, com a possibilidade de mudarmos as situações, unidos a Jesus em sua missão de paz e de amor. Claro que necessitamos mudar as atitudes e assumir os critérios de Jesus que se entrega, enquanto os outros fogem; que dá a vida, enquanto os outros tomam as armas; que perdoa, enquanto os outros se enchem de ódio.

A Semana Santa deve ser vivida e celebrada neste clima do grande amor de Jesus, mas ao mesmo tempo se deve vivê-la como um forte protesto diante das agressões à dignidade humana. Não podemos viver uma Semana Santa sem compromissos, sem atenção ao irmão. Que cada uma das palavras de Jesus encontre eco em nosso coração.

Este Domingo de Ramos e esta Semana Santa nos encham do amor de Jesus, guardemos suas palavras, suas atitudes e seus ensinamentos em nosso coração. “Será bom pormo-nos apenas uma pergunta: Quem sou eu? Quem sou eu, face ao meu Senhor? Quem sou eu à vista de Jesus que entra festivamente em Jerusalém? Sou capaz de exprimir a minha alegria, de louvá-lo? Ou fico à distância? Quem sou eu, em face de Jesus que sofre?” (Papa Francisco)

Veja também

Comentários