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O Crime histórico de Carlota de Brito

Josemir Camilo. Publicado em 10 de março de 2018.

O dublê de historiador e advogado, Mário Vinícius Carneiro, depois de presentear leitores com a história do clube mais popular da Paraíba, o Treze Futebol Clube, agora nos brinda, em narrativa, com restauração do processo de Carlota Lúcia de Brito, a mulher que mandou matar, em 1849, em Areia, o ex-presidente da Província da Paraíba, Trajano Alípio de Hollanda Chacon, no cenário ainda não removido dos combates da Praieira, naquela cidade.

Antes de prosseguir, vale lembrar que Carlota não seria a primeira a atentar contra a vida de um chefe político, prepotente, que a humilhara em público. Quase um século antes, uma paraibana (não se sabe se nativa ou adotada), Quitéria Bandeira de Melo, da fidalga família desse nome, foi presa em 1770, sob a acusação de ter mandado um escravo tirar a vida do Governador de Capitão-Mor da Paraíba, o Coronel Jerónimo de Castro e Mello. Este andara difamando-a pelas ruas da cidade de Nossa Senhora das Neves, dizendo que ela era ‘amiga’ do Vigário. Por esta conjuração, Quitéria passou oito anos presa, apesar da influência da família, na Fortaleza das Cinco Pontas, no Recife.

Não é só o Mário quem me provocou com esta leitura rápida, quase um thriller. Interessei-me por ‘Carlota’, quando professor na Universidade Estadual da Paraíba, fui procurado por uma aluna para orientar seu Trabalho de Conclusão de Curso, sobre o Crime de Carlota. O que, de fato o fiz. Depois, foi que conheci o texto de Joan Meznar, citado por Mário, e o traduzi, para comparar com as fontes da pesquisa da aluna. Até então, o que eu conhecia era a versão, em curta metragem, O Caso Carlota, do professor e cineasta Machado Bittencourt, realizado como aula do Curso de Comunicação Social daquela universidade, rodado em 1982.

A obra de Mário Vinícius Carneiro está bem organizada e se percebem três grandes quadros, três atos, como se teatro fosse. E um entreato, a descrição da ilha de Fernando Noronha. O primeiro é o histórico dos personagens e dos lugares; o segundo é o processo e o julgamento; depois, vem o entreato. O terceiro, a vida na Ilha, traz um novo desfecho, nada empolgante dos últimos dias de Carlota. Desfaz-se o mito calunioso de um final, aparentemente, feliz.

Cenário para o primeiro ato: Carlota Lúcia de Brito era mulher do chefe político do Partido Liberal, Joaquim José dos Santos Leal, em Areia, cujo grupo político se envolvera no levante que ficou conhecido em Pernambuco e na Paraíba, como Revolta Praieira. A cidade de Areia foi a única que serviu de palco direto desta revolta, quase sem sentido para a Paraíba, graças à acolhida que o paraibano, Juiz de Direito e Delegado, Dr. Maximiano Lopes Machado, correspondera aos apelos de seus colegas de Direito e de Partido, do Recife, principalmente após o impacto da morte de um dos líderes políticos, o advogado, Nunes Machado. Os revoltosos chegaram à cidade de Areia em fevereiro de 1849 e o assassinato de Trajano Chacon ocorreu no dia de sua eleição e derrota de Santos Leal, em 05 de setembro de 1849.

Jornalista ou historiador investigativo? O autor chega a ser historicista. Detalhista na reconstituição do cenário, vai até às capitanias para situar geograficamente as origens territoriais da personagem central. Muito bem confeccionado, historicamente, o livro se apresenta em capítulos curtos, lembrando os romances de folhetins do século XIX; algo como ‘veremos no capítulo a seguir’. Personagens têm história (por capítulos) como uma trama romanesca. História romanceada?

No entanto, é História, em que o autor parece enveredar por uma hermenêutica, acompanhado de documentos históricos e fotos (até presenciais aos vestígios), como se fosse um repórter da História. Recorre à oralidade e às memórias de parentes de personagens e até de sua própria família, ao tentar fazer história do fato (que ele mesmo sustenta o conceito) e da espacialidade do crime. Ao buscar “esclarecer a verdade”, pesou o jurídico sobre o historiador, teorias à parte. O autor busca a restituição histórica; é revisionista à la José Honório Rodrigues?

Formado em História e Direito, submete ao leitor as variantes de informações para determinar a sua ‘tese’, a de inocentar Carlota de alguns desmandos e traições historiográficas e de memória coletiva. Questiona as fontes e vai em busca de como, historicamente, elas se formaram. O autor não esconde sua inclinação ao Direito, seja pela formação, seja pelo magistério que exerce em faculdades, ora altercando com as fontes, ora usando refrão, ‘data vênia’

Defende Carlota, como advogado. O processo jurídico é sua peça de resistência. Utiliza-se de documentação manuscrita, transcrevendo-a, e apresentando-a em fotos. Excelente condução da trama, quase romanesca, que faz o leitor não largar o livro e lê-lo de um só fôlego, possível fosse. Briga com os autores, Almeida (José Américo e Horácio) de Areia, dialogando o tempo todo, com Horácio de Almeida; contrariando o livro deste, ao narrar toda a técnica do processo, tanto o manuscrito como o ato em si, o julgamento, suas tramas, seus enredos, personagens e sentenças. Para isto, faz comparações entre julgamento (júri) antigo e o de hoje, com esmero de detalhes.

O autor traz novas achegas ao Caso Carlota, como a contradição de ela ter-se tornado sogra e herdeira de um Chacon, e o período de três anos e sete meses, que passou no continente, na Casa de Detenção, do Recife, para gerir a herança, bem como sua volta à Ilha. Termina por desmistificar o destino final da mulher fatal, contrariando a história construída por Horácio de Almeida e engordada pela memória oral da cidade e região. Carlota nunca foi anistiada, na República, sequer voltou ao Recife, no período aludido. Morreu desconhecida do país, na própria ilha-cárcere.

Mário Vinicius, contrariando o que diz de si, no capítulo 67, é, sim, data vênia, (para usar o seu próprio jargão, da categoria) o advogado de Carlota. Veio tirá-la do inferno das fofocas (um cunhado, já cego e louco, e um escravo, voltaram para viver em Areia, onde espalharam sua versão) e da moralidade austera construída por historiadores vinculados às famílias dominantes de Areia, para colocá-la no limbo da naturalidade. Nem monstro, nem final feliz, como dona de cantina no Recife, anistiada, como supuseram. Mulher forte, numa sociedade patriarcal (conceito do autor), que sofreu ameaças e as revidou. Mulher, sujeito histórico.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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