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O centenário do CAD e a Revista Evolução (II)

Josemir Camilo. Publicado em 21 de fevereiro de 2019 às 11:09

Com o reconhecimento do IP em nível estadual, graças a JP e necessitando de um veículo de comunicação para explicitar suas diretrizes pedagógicas, em 1931, o Instituto Pedagógico brindou a cidade com mais um serviço de comunicação e sociabilidade, a revista Evolução. Magazine, como proclamou um dos colaboradores, era uma “Revista mensal, de interesses gerais” e o primeiro número saiu em setembro daquele ano. Editada com desenhos em art nouveau, media 16cm por 26cm, e trazia já uma novidade: a capa em cores, tendo ao centro uma foto, inicialmente de políticos (José Américo, Getúlio Vargas, prefeito Lafaiete Cavalcanti), depois, de professores homenageados, como Clementino Procópio, e autoridades, como Dr. Arlindo Correia, e da educação, Dr. Severino Cruz. Em seu número 7, no entanto, trazia a foto da professora Herotides Mathias de Oliveira.

A revista, de imediato, rendeu homenagem ao morto ilustre, aquele que reconheceu o valor do Curso Normal do IP: “À Memória do Presidente João Pessoa”, na página 10, com uma ode, sem autoria, laudatória ao benemérito do Curso Normal. O texto é modernista no feito gráfico e lembra uma ampulheta sobre uma base, sendo a moldura da foto do homenageado em sépia, em estilo art nouveau, sob a legenda: “Morto… Não te venceram!”

Pelo editorial pode-se perceber, pela linguagem, que não era tão modernista quanto à proposta gráfica: “Sáe, hoje, à tona, a ‘Evolução’ – vexilario que representa o esforço de uma arrancada de modestos pioneiros acantoados neste socálco da Borborema” e continuava numa linguagem que já pareceria arcaica: ‘seio pletórico’, ‘êsmo’ – no sentido de meta, ‘bandos garrulosos de crianças’, ‘ritmo sincrónico e onimodo’, ‘draino’ (dreno?), ‘ideias joeiradas’, ‘traino’ (treino?) e ‘viático da razão’. A retórica talvez fosse a influência do ex-padre e editor, Almeida Barreto.

Na página seguinte, a revista retoma a parte dos colaboradores com o artigo do Dr. Elpídio de Almeida “Mais cuidado com os cabelos. Conselhos às Moças”. O tom da modernidade e das novas sociabilidades vai ser o motor de Evolução e sempre com apoio da ciência. É o que nos convida, em seguida, o Dr. Antônio de Almeida com seu artigo “Hygiene Moderna”, com o subtítulo: Essencial fator do Progresso Humano. Faz uma rápida resenha dos avanços da ciência, apontando a era ‘pastoriana (de Pasteur), a abertura do canal do Panamá, a extinção da febre amarela no Rio de Janeiro, como evidências do avanço da ciência e da medicina que deve ser coroado com a prática da higiene moderna. Defendia também o princípio de que cada pessoa valia pela riqueza nacional, dividida pelo total dos habitantes do país e que urgia cuidar da saúde e conservar a vida pelo mais dilatado tempo possível. Como se percebe, havia uma apologia à civilidade, este conjunto de códigos de comportamento, de norma de conduta, boas maneiras e educação pessoal, sem precisar de uma ética católica, parecia dizer e, sim, formadora de uma ética laica.

Evolução publicava o artigo “A Cooperação dos paes e professores na formação dos caracteres infantis”, assinado por “M.C.C.”, em que abordava a necessidade dos pais e professores colaborarem no processo educativo. Na página seguinte, vinha a foto do corpo docente, em que já havia um ligeiro predomínio feminino, 8 mulheres e 7 homens, a saber: Manuel de Almeida Barreto, Sargento Moisés Araújo (da Educação Física), Dr. Severino Cruz, Tenente Alfredo Dantas, diretor Lino Fernandes, Dr. Elpídio de Almeida e Dr. Antônio de Almeida. As mulheres eram: Erundina e Tété Campelo, Sinhazinha (Flávia) Schuller, Ester e Yayá Dantas, Francisquinha Amorim (que escreveu o artigo: “Educação Feminina no Brasil”); outras professoras eram Maria Coutinho e Sizênia Galvão, além da evangélica, Celênia Pires, que migrou para Angola, em missão religiosa e de lá colaborou com Evolução, com suas descrições sobre aquela, então, colônia portuguesa: “Carta de Angola”.

Evolução se confrontava, indiretamente, com o semanário católico, A Imprensa (que tinha, em Campina, o seu baluarte no escritor Epaminondas Câmara), pelo ensino laico. A vanguarda do magistério trouxera para Campina uma palestra de um dos líderes da Escola Nova, divulgando: “o autor de Aritmética na Escola Nova, daria uma palestra intitulada O que há de novo na escola Nova?”. De fato, Evolução também busca petição de princípio científico ao adotar a palavra-chave do darwinismo social Evolução. Se ao mesmo tempo quer indicar que é progressista (e que, portanto seu oponente – A Imprensa – é conservador), quer, igualmente, mostrar seu engajamento no universo científico. Alguns médicos eram professores do IP, como Dr. Elpídio de Almeida, que lecionava biologia e produziu um artigo sobre epidemias africanas trazidas paro o Brasil. Outro médico, Dr. Severino Cruz, ex-professor de química, do IP, veio a ser nomeado inspetor federal. Seus nomes, em Evolução, significavam a presença da ciência.

Impressa nas oficinas do jornal Brasil Novo, de Tancredo de Carvalho, jornal recém instalado na cidade a revista (vindo de Esperança), viveu apenas 8 exemplares (em 9 números), seu editor chefe era o professor potiguar, Manuel de) Almeida Barreto, e seu proprietário era o Tenente do exército Alfredo Dantas, cujo passado político estava envolto em movimentos políticos, como a campanha de Rego Barros.

Não conseguimos apurar os motivos da extinção, tanto de Evolução, como de Brasil Novo, mas o que se observa é que ambos desaparecimentos são concomitante. Por outro lado, parece surgir outro jornal em lugar de Brasil Novo, que é o Comércio de Campina (de 1932 a 1933) fundado por Alfredo Dantas e Almeida Barreto que, provavelmente, assumem o lado gráfico da revista, pois esta publica em seus últimos números (em uma só edição – abril e maio de 1932) um editorial desse último jornal.

Além da parte educacional, Evolução trazia publicidade e parte social, com notas de aniversários, casamentos e algumas ‘fofocas’, além de trocas de versos entre homens e mulheres poetas, pontificando Iracema Marinho, colaboradora constante de vários jornais e almanaques. Talvez juntar pedagogia com publicidade não fosse algo tão proveitoso e, daí, um jornal seria a saída. Evolução se adaptava aos novos tempos.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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