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O cego que “assistia” televisão

Jurani Clementino. Publicado em 8 de maio de 2018 às 11:26

Quando eu era menino e vivia perambulando pelas estradas e sítios vizinhos atrás de uma televisão ligada (para entreter uma “boca de noite” ou ajudar a matar o tédio de um fim de semana) conheci um cidadão, completamente cego, que assistia TV diariamente. Guardo boas recordações dele até hoje. Por vários motivos. Posso assegurar que dos donos de aparelho de TV que conheci, foi o que melhor nos recebeu em sua casa. Tanto ele, quanto sua esposa, dona Francisca. Trata-se de seu Zé Velho, hoje falecido, morou a vida toda às margens da Lagoa de Dentro, no sítio que recebeu o mesmo nome. Sua casa era ampla, possuía um alpendre e uma grande sala de estar onde ficava, num dos cantos de parede, a sua TV colorida, catorze polegadas, conectada a uma antena parabólica.

Todos os dias, logo após a novela das sete, algum filho ou neto, colocava seu Zé Velho numa cadeira, bem em frente à TV para que ele assistisse ao Jornal Nacional. Eu me perguntava espantado. Com pode um cego assistir televisão? Era o primeiro cego que eu via na vida. E aquela novidade me causava estranheza. Depois entendi que ele ouvia o telejornal e esse escutar fazia com que explorasse outros sentidos e imaginasse, criasse em sua cabeça aquelas situações narradas. E, seguindo esse mesmo ritual, imaginário, seu Zé Velho assistiu à novela “O Rei do Gado”, sem nunca ter visto um pé de café dos Berdinazzi ou uma cabeça de boi dos Mezengas. Ele acompanhava os diálogos dos personagens e vez por outra perguntava a quem estava próximo se era fulano ou beltrano quem estava falando.

Vivendo cego por mais de duas décadas, seu Zé Velho já havia se acostumado tanto com a cegueira e sabia onde se encontrava tudo dentro de casa que às vezes, ele mesmo, se esquecia que estava cego. Com um chapéu de feltro na cabeça e óculos escuros para disfarçar a cegueira, ele ia aos jogos de futebol, torcia pelo time do Alto Alegre, equipe da comunidade em que morava, frequentava os bares da região, dirigia-se à cidade para sacar o dinheiro do aposento e contava sempre com o apoio de alguém que lhe dava a informação que lhe negavam os olhos.

Com o tempo descobri que seu Zé Velho não tinha nascido cego. Atribuiu a perda da visão a uma mordida de cobra jararaca. Na época, aos 52 anos, já tinha todos os filhos e quase todos os netos. Mas perdeu de vista muita coisa durante os vinte e dois longos anos em completa escuridão visual. Até que foi informado das invenções e descobertas científicas capazes de lhe trazer de volta a visão. Era a oportunidade que seu Zé Velho tinha para enxergar as marcas do tempo no corpo de sua esposa. Ele não teve dúvidas. Aceitou fazer a cirurgia. E ficou radiante com o resultado. Finalmente estava enxergando.

O mundo se transformara novamente num grande universo de cores. E seu Zé Velho ficou surpreso ao perceber que os cabelos de dona Francisca haviam, naturalmente, ganhado uma tonalidade de plumas de algodão. A cabeça algodoada da esposa lhe dava o aspecto de um negativo de fotografia. Mas apenas contemplou o que seus olhos viam porque achou lindo. Então os filhos e netos fizeram fila para que ele os vissem crescidos e envelhecidos. Finalmente podia assistir na TV os campeonatos de futebol e torcer pela Seleção Brasileira. Seu Zé Velho transformara-se num menino aos setenta e quatro anos. Vinte anos depois, o aposentado encerrou sua maratona por aqui. Vítima de um Acidente Vascular Cerebral, aos noventa e quatro anos de idade.

Campina Grande – quarta-feira 26 de abril de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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