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O Cantochão de Aleluia

Josemir Camilo. Publicado em 26 de abril de 2019 às 12:13

Aleluia caminhava pela cidade toda. Se passava mais calado, o pessoal dizia que tinha sido levado para a Tamarineira e tomado uma lapa de injeção que ficou calmo. Mas esse não era o Aleluia que todo mundo esperava, já fazia parte da paisagem. Por perto das onze horas era certeza ele já vir por perto do correio e já começar a cantar. Com seu saco de estopa moderna, rasgada, mas moderna, às costas, geralmente no ombro direito, cheio sabe-lá-Deus-de-quê, enchia a rua com seu canto gregoriano. Ou o que ele pensava que era, cantiga de padre.

Mas o que ele cantava? Ninguém sabe ou sabia, por que não tinha letra, era um mumunhado que só tinha, pra ele, um significado sonoro e o bicho tinha um bom timbre. Era uma melopeia desenfreada e alta, um cantochão de Aleluia. Ninguém conseguia interrompê-lo, nem seu canto, nem seus passos. Cada um que jogasse uma pilhéria e até a sua própria ‘Vai Trabalhar’, mas quando ele cantava era todo gozo, nada o interrompia, nem vozes, nem carro, ao atravessar a rua, nada nem ninguém.

Era diferente, quando não vinha cantando. Tinha seus dias de glória, pois. No dia em que não cantava, Aleluia caminhava com a mesma pressa, sem o saco às costas, marchando rápido, com os braços se cruzando à frente do corpo e não lateralmente, como se fosse uma parada federal. E de vez em quando imitava o miado alto do gato, assustando mulheres e mocinhas, ou então era quando esculhambava qualquer um que lhe soltasse ou não pilhéria: ‘vai trabalhar! Tem o que fazer, não, é? Ou até: “Vamos trabaiá, minha gente, vamo trabaiá!”. Ali era o negro mandão, virava senhor de engenho e de fazenda. E o povo do comércio e da Praça, caía na gaitada.

O povo dizia que foi a febre que cozinhou o juízo; não era o mesmo diagnóstico que Seu Virgílio dava, que tinha sido meningite ou sarampo e o menino, embora crescesse taludo e forte, ficou vazio na cabeça.

– Mas, de onde tirou o cantochão?

– Do tempo que a mãe foi lavadeira do convento e ele carregava a trouxa na cabeça?

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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