Fechar

logo

Fechar

O caminhão de Bernardo

Jurani Clementino. Publicado em 28 de setembro de 2018 às 11:02

Quatro horas da manhã e o barulho do motor rompia o silêncio daquelas madrugadas rurais. Todo mundo já sabia: era o caminhão de Bernardo que avisava a hora de levantar, caso o cidadão quisesse ir à cidade fazer feira ou resolver algum problema citadino. A pessoa nem dormia direito porque aquilo era muito cedo. Era tão cedo que normalmente se chegava à Várzea Alegre – CE, e a cidade ainda dormia. Apenas alguns feirantes e entregadores de leite circulavam tranquilamente por aquelas ruas semidesertos. Hoje me pergunto, porque aquilo, meu Deus? Dava tempo chegar à cidade e dormir um sono até o comércio abrir as portas. O ponto de partida do caminhão de Bernardo, era o sítio Umari dos Carlos, depois passava pela Lagoa de Dentro e ia serpenteando pelas estradas de barro das Carnaúbas e Jatobá feito um vagalume gigante, rompendo com a escuridão e dividindo o barulho matinal com os galos. Isso mesmo, os verdadeiros donos das madrugadas sertanejas tinham um concorrente: o motor daquele caminhão velho de carroceria amarrada por cordas de náilon.

Por onde passava ia juntando gente e bagagem de todo tipo. Os passageiros se acomodavam em cima de sacos de legumes, bancos de madeira, nas tábuas da carroceira do carro… Chegava a hora que não cabia mais ninguém, mas Bernardo descia da cabine e sempre dava um jeito de acomodar mais um. A cabine, também chamada de boleia, geralmente reservada para os idosos ou as grávidas, era muito disputada. E rapidinho estava cheia. Um lugar pra duas pessoas e o motorista às vezes levava três quatro. Quando essa linha começou, aproximando o sítio da cidade, não havia proteção nas carrocerias dos caminhões. Fosse em dias chuvosos ou em pleno sol escaldante de meio dia, as pessoas tinham que improvisar. Usavam pedaços de panos para se proteger do sol e sacos plásticos para livrá-los da chuva.

Havia ainda no sítio, quem, vez por outra, comercializava animais com marchantes da cidade e embarcava tudo no caminhão de Bernardo. Cabras, ovelhas, porcos e galinhas se misturavam às pessoas na carroceria daquele caminhão pau de arara. Aquilo não era uma viagem, tratava-se de uma aventura sobrenatural, surreal. Em dias de pagamentos de funcionários públicos e aposentados o caminhão ficava apinhado de gente. Carro com hora de saída tanto do sítio, cinco horas da manhã, quanto da cidade, ao meio dia. Não chegou na hora, perdeu. Mas se conseguiu embarcar pra cidade e não resolveu tudo no tempo determinado, ficava a ver navios na rua.

E assim era com os moradores dos sítios Umari, Carnaúbas, Juazeirinho, Jatobá, mas também com quem morava no Riacho do Meio, Mundo Novo, Riacho Verde, dos distritos de Calabaça, Ibicatú, Naraniú… Praticamente todos os caminhões paus de arara dessas comunidades ficavam estacionados ali onde hoje é a Avenida Luiz Afonso Diniz. Recentemente, considerando que aquelas viagens eram perigosas demais, a justiça passou a fiscalizar esse tipo de transporte e os caminhões foram sendo modernizados, colocaram cobertas nas carrocerias e posteriormente trocaram por ônibus, um pouco mais confortáveis e aparentemente mais seguros. Também proibiram o comércio e transporte de animais junto com os passageiros. Por fim, queria deixar claro que o caminhoneiro Bernardo, apesar de tudo o que mencionei acima, sempre foi um ser humano do bem. Ao longo de todos os anos em que esteve fazendo aquela linha sítio – cidade, sempre procurou agradar a todo mundo. Para aguentar aquela diversidade de passageiros que envolvia estudantes, aposentados, bêbados e mulheres, algumas delas, fofoqueiras, era preciso ser muito tranquilo e ter a paciência de Jó.

 

Jurani Clementino

Campina Grande – sábado 15 de setembro de 2018

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube