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O bicentenário de uma Revolução Nordestina

Josemir Camilo. Publicado em 4 de janeiro de 2017 às 20:52

Por Josemir Camilo

Em 2017, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e o Ceará estarão comemorando os duzentos anos desta que foi, não só, a primeira experiência republicana, mas a primeira tentativa de o Brasil se tornar independente de Portugal. Alagoas era, então, território pernambucano, uma Comarca, que seria emancipada como castigo aos revolucionários, depois de 1817, como o será a separação da ex-capitania do Rio Grande do Norte da de Pernambuco, em 1821. Um revolucionário enviado à Bahia foi pego e fuzilado, daí que esta semente sequer logrou nascer.

Em 6 de março de 1817, irrompeu no Recife uma Revolução de caráter republicano, que vinha se gestando nas conjuras, mas que devido a uma precipitação militar, terminou por apressar a luta das tropas e a formação de um governo diretoriano, à la francesa. Este movimento de matriz ideológica liberal teve imediata adesão na Paraíba, principalmente na capital, se espalhando pelas vilas de Itabaiana, Campina Grande e Areia.

O celeiro intelectual deste movimento foi o Seminário de Olinda, fundado pelo Bispo Azeredo Coutinho, em 1801, onde pontificou o maior dos intelectuais do movimento Padre João Ribeiro. Cabe citar também a pregressa influência política e cientifica do paraibano, Padre Manoel de Arruda Câmara, que fundara no começo do Século XIX, o Areópago de Itambé. Acredita-se que, em todas as quatro capitanias, cerca de 70 padres aderiram ao movimento, alguns deles, depois de libertados, voltaram à outra grande luta, a Confederação do Equador, sete anos depois.

Na capital paraibana, Amaro Gomes Coutinho e Estevam José Carneiro da Cunha proclamaram a república em 14 de março. Coutinho tinha um velho dissabor contra os portugueses, pois se sentira injustiçado ao ser reformado do seu posto de Coronel de Milícia. Naquele mesmo ano, assentara praça o menor José Peregrino Xavier de Carvalho e, em 1817, já tenente, foi enviado com tropa ao Rio Grande do Norte. O clero também esteve presente, tais como os Padres José da Costa Cirne, Antônio Pereira de Albuquerque e Inácio de Brito Baracho, na capital; Luiz José Correa de Sá, em Sousa; Virgínio Rodrigues Campelo e José Gonçalves Ouriques, em Campina Grande. O movimente atingiu Pombal, liderado pelo Padre José Ferreira Nobre, e em Sousa, pelos padres Luiz José Correia de Sá e José Martiniano de Alencar (que viria a ser pai do escritor de igual nome) que, dali, levaram a luta para o Ceará.

Entre os revolucionários da Paraíba, destacou-se João Luiz Freire, itabaianense, que chefiou colunas contra a reação lusa, no Pilar e na Capital. Mas o ícone da Revolução na capital paraibana se tornou o jovem Peregrino de Carvalho.

Segundo os historiadores locais, Elpídio de Almeida e Epaminondas Câmara, o vigário de Vila Nova da Rainha, o padre pernambucano, Virgínio Rodrigues Campello, junto com seu coadjutor, Padre José Gonçalves Ouriques, fizeram uma reunião no Largo da Matriz, frente ao pelourinho, e em frente ao recém-construído prédio da Câmara e cadeia (1814). Lá, o comandante das Ordenanças, Capitão José Nunes Viana leu a proclamação da Junta Governativa de Pernambuco.

Juntou-se, a estes três, o senhor de engenho João Martins Torres, da povoação de Alagoa Nova. Mas, uma vez derrotada a insurreição, teve ele seus bens sequestrados, e morreu na prisão, no Recife. Além destes, participou também o fazendeiro Antônio Manuel da Luz, dono da fazenda Capivara, ao sul de Campina Grande, que também pegou em armas, junto com seu cunhado João Pereira de Araújo. Os dois foram presos em Limoeiro-Pe, e logo soltos. No entanto, segundo Elpídio de Almeida, quando da Confederação do Equador (1824), este proprietário foi trucidado pelas tropas imperiais.

Outro padre de Campina Grande preso, foi o Padre Leonardo José Ribeiro, mas logo posto em liberdade, junto com o Capitão Nunes. Esse padre, segundo Epaminondas Câmara, um mês antes de rebentar a revolução, tinha doado à paróquia, um terreno à Irmandade do Rosário dos Pretos para que fosse construída uma igreja (onde hoje é, parcialmente, o cine Capitólio).

Os padres Virgínio e Ouriques só foram libertados após 3, ou 4 anos de prisão. Padre Virgínio, segundo o historiador pernambucano, Pereira da Costa, foi condenado a 10 anos de degredo, em Angola, mas ficou preso na Bahia. Anistiado, mal saído da cadeia, foi eleito deputado às Cortes de Lisboa, em 1821, seguindo para Portugal, e assumiu em agosto de 1822. Com a Independência, retornou ao país e foi eleito, pela Paraíba, deputado constituinte;

Se Campina não teve mártires, nessa revolução, a cidade da Paraíba teve. O próprio Peregrino de Carvalho, que voltava do Rio Grande do Norte, aonde fora dar reforço à revolução, e que tentara reagir com sua tropa aos realistas que já haviam tomado o poder na capital paraibana, foi interceptado por seu pai, Augusto Xavier de Carvalho para que depusesse as armas. Em Natal, André de Albuquerque Maranhão, sem o apoio de Peregrino, foi ferido e morreu na cadeia. O jovem paraibano foi julgado e condenado à forca, junto com Amaro Gomes Coutinho, Francisco José da Silveira, José Peregrino de Carvalho, Padre Antônio Pereira de Albuquerque e Ignácio Leopoldo de Albuquerque Maranhão. Foram, em seguida, decapitados, e as mãos, decepadas, expostas em suas cidades.

Outro padre, foi o goianense Padre João Barbosa Cordeiro, vigário no sertão do Rio Grande do Norte, participou ativamente da Revolução. Perseguido, se passou a Pernambuco e caiu preso. Anistiado em 1821, participou da Junta Governativa da Paraíba e, posteriormente, da Confederação do Equador (1824), pelo Rio Grande do Norte, sendo, novamente, preso, conseguindo fugir. Daí, pela movimentação dos líderes e tropas revolucionárias, podemos pensar que a revolução se espraiou pelo ‘Nordeste’ de então, sendo uma revolta regional, nordestina. Terminava, coroada de mortes e prisões, a primeira manifestação concreta de o Brasil se libertar do colonialismo português. A glória não cabe a 1822 e, sim, a 1817.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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