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O anencefálico

Rafael Holanda. Publicado em 20 de fevereiro de 2017 às 9:38

Por Rafael Holanda (*)

Sou produto de uma malformação de um tubo neural, que a mãe natureza tinha por obrigação de me entregar para família sem defeitos.

Sou um erro, mas fruto de um amor profundo, tendo sido alegria no momento da descrição do teste de gravidez, mas me tornei lágrimas aos olhos dos que deveriam entender e aceitar a evolução desta triste verdade.

Em muitos corações habitam a fé e baseado nisto posso chegar a uma casa nem que seja para permanecer em vida por poucos momentos ou dias, mas cercado da esperança e luminosidade divina.

Sou odiado no primeiro diagnostico e por forças de lei que fere a minha integridade, em muitos lares passo a ser incompreendido e detestado a ponto de ser expulso do meu universo, sem a chance de sentir o toque das mãos de quem já tinha me apaixonado.

As lesões inerentes a minha evolução amputa-me a capacidade de ter uma consciência voluntaria, mas o meu tronco está integro e minhas lágrimas podem brotar, mesmo que os meus olhos não possam enxergar a repugnância que alguns me encaram.

Não ouço, pois livre de um cérebro me perco no silencio da minha intrínseca tristeza, e o meu tálamo que tem a finalidade de compreender tudo, se curva a dor de minha dor.

Enquanto os cientistas buscam encontrar em outros mundos apenas uma bactéria para compreenderem a existência de vida extraterrestre, a lei promulga o direito de morte a um ser destituído de defesa.

No útero eu, nos meus momentos de repouso podia sentir as mãos me acariciarem e as vozes que partiam de uma mãe compreensiva e sabedora da minha lesão através da sensibilidade de minha pele, mas mesmo assim lutava pela minha existência.

Em outros lares após as primeiras hipóteses diagnostica, as minhas roupinhas eram guardadas nas gavetas visando uma nova gravidez, pois os meus sonhos se sentir a brisa do mundo já tinha sido estudado e decretado pelo aborto.

São estas coisas que nos permite crer que os casais detestam cuidar de pequenas cruzes que Deus nos dar, ainda mais pelos pequenos defeitos, que por sim só foram descartados; quantos se perderam num horizonte sem retorno de em um balde de uma clinica.

Não nos trate assim, não permita que a nossa sensibilidade de ser humano, seja apenas uma coisa que surgiu na tela de uma ultrassonografia e de imediato foi condenado e sentenciado.

Lembre-se que o erro inato da evolução do feto, pode surgir em outros lares da família, a mesma família, que a muito tempo descartou a vida de alguém, que antes de tudo não pediu para nascer

Eu sou um anencefálico; sou fruto de algo que não participei; sou apenas alguém que mesmo sem cérebro sem visão ou ouvido; gostaria apenas de sentir o sussurro da brisa terrena.

(*) Médico

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Rafael Holanda

* Médico.

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