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O amargo doce intertemporal

Jobson de Paiva Sales. Publicado em 25 de fevereiro de 2019 às 12:30

Voltemos um pouco no tempo. Imagine-se nos seus quatro, cinco anos de idade. Qual era sua guloseima preferida? Refiro-me aquela que mesmo hoje ao saboreá-la você se reporta aos locais e sensações da infância. Certa feita, passeando com seus pais e ansioso pelo doce depara-se com a bela vitrine que adorna em perfeição sua iguaria predileta. “Mamãe, papai, eu quero! – Caso você espere, na volta compramos dois ao invés de um. O que me diz? – não, mamãe, quero agora!”

Talvez sua perspectiva atual o impeça de se ver naquela última resposta, afinal por que não dois ao posto de um? Entretanto para aquela idade não será difícil lembrar situações em que preferiu “menos agora ao mais depois”.

Um experimento de gratificação postergada foi realizado no final dos anos 60 na Universidade Stanford, EUA. Os pesquisadores ofereciam a crianças de cerca de quatro anos um doce que poderiam comer a qualquer momento. Mas caso resistissem até os pesquisadores regressarem à sala a criança ganharia mais um. A espera, da qual os baixinhos não eram informados, era de cerca de 15 minutos. Apenas um terço das crianças conseguiu esperar. Retardar a gratificação tornou-se mais frequente para crianças a partir dos 8 anos de idade. Este estudo de longo espectro acompanhou as crianças até a vida adulta para ali concluir que as menos impulsivas tornaram-se adultos mais resilientes, com menor incidência criminal, com menos problemas com drogas, menos obesos, com menor índice de tabagismo e mais propensos a matrimônios e trabalhos estáveis.

O estriado ventral, área cerebral do primitivo sistema límbico, ligado ao prazer e recompensas imediatas, desenvolve-se mais cedo nos humanos que o giro pré-frontal inferior no córtex (esta última responsável pelos julgamentos racionais). A evolução nos municiou com tal artefato posto que apreciar racionalmente e em demasia, para nossos irmãos primitivos, representaria a perda de valiosas chances de sobrevivência. Os caçadores coletores não sabiam quando teriam outra refeição. O desenvolvimento do córtex pré-frontal compensará o sistema límbico criando um delicado e conflituoso equilíbrio apenas a partir da puberdade. Assim os achados em ressonância magnética de décadas posteriores confirmaram: atiça-se o córtex pré-frontal quando se decide racionalmente; ouriça-se o estriado ventral (sistema límbico) quando o prazer imediato nos inunda.

Nossas decisões sobre compras, infidelidade, esforços e endividamento na vida adulta não fugirão a este complexo mecanismo bioquímico, e representarão sempre uma escolha entre postergar o prêmio, restando em situação credora para com o futuro, ou antecipá-lo quedando-se devedores do porvir. Acometido por um súbito incremento de renda, por exemplo, o que você faz?

Nem sempre precavidos individualmente, restam-nos instrumentos protetivos coletivos como a Previdência Social a nos escudar de nossa miopia face ao futuro. Nas Ciências Naturais a natureza fornece às espécies uma trincheira contra interesses meramente individuais, assim privilegiando a manutenção coletiva. A Previdência emula o dispositivo para as Ciências Sociais.

Propostas de modificação do sistema protetivo social devem, por sua importância, ser amplamente discutidas, não olvidando os indivíduos de sua biológica inclinação à fruição imediata em prejuízo do futuro.

O jogo intertemporal é mais intrincado do que se pode imaginar da superfície. Buscando providência seremos previdentes?

“Tendo a cigarra em cantigas;

Passado todo o verão;

Achou-se em penúria extrema;

Na tormentosa estação”.

                               La Fontaine

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Jobson de Paiva Sales

Mestre em Gestão de Sistemas de Seguridade Social, Madri, Espanha. Gerente Executivo do INSS em Campina Grande. Articulista. Consultor e Palestrante.

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