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O abandono da Estação Nova

Josemir Camilo. Publicado em 9 de novembro de 2018 às 7:49

Chamado a dar um depoimento à TV Itararé, sobre o estado em que se encontra a chamada Estação Nova, fiz uns levantamentos que, aqui, divulgo com mais detalhes. Inaugurada em 26/01/1961, portanto, há 57 anos (e, no entanto, já tão abandonada!), trata-se de um patrimônio da União, até bem pouco tempo, sob guarda do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Recentemente, soube que foi repassada a guarda para o DNIT. Espera-se que, como patrimônio ferroviário nacional, venha a ter um destino mais emblemático e de melhor utilização – um Museu do Trem e um verdadeiro Terminal de Integração (retirando-se o do centro), com o VLT e as linhas de ônibus. Em tempo, volto a insistir na tecla de que os armazéns, na Estação Velha, da antiga Great Western (onde foi a boate Maria Fumaça), deveriam ser a casa da cultura da cidade, em homenagem ao prefeito do desenvolvimento campinense, Elpídio de Almeida, entregue ao Instituto Histórico de Campina Grande, para sua sede, em regime de comodato.

A Estação é produto da nacionalização das 10 linhas que formavam a GWBR e foram incluídas na malha da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), pelo governo Juscelino Kubistchek (JK) em 1957, três anos antes de vencer o contrato com a GWBR. A RFFSA foi criada como sociedade de economia mista de Administração Indireta do Governo Federal, vinculada ao Ministério dos Transportes, (com uma divisão: RFN – Rede Ferroviária do Nordeste).

A Estação Nova foi construída para proceder a ligação entre a RFN e a Rede Viação Cearense, que estacionara em Patos, vindo de Cajazeiras, e deveria ser inaugurada, em 1958, por ocasião do centenário da ferrovia no Nordeste, que começara com a ferrovia inglesa Recife-São Francisco. Esta estação só foi aberta em 1959. No entanto, em 57, um grupo de intelectuais, entre eles, William Tejo e Hortênsio Ribeiro, embarcaram, ainda, na Estação Velha (a inglesa), para uma viagem até Juazeirinho, para inaugurar a extensão da linha até aquele município, documentada em foto, exposta no Museu do Algodão. De fato, a extensão Campina Grande-Patos levaria nossos produtos até o sertão cearense e traria os de Fortaleza.

A arquitetura da Estação Nova traduz dinâmica, em seu estilo misto de proto-moderno e art déco, e se enquadra no plano nacional desenvolvimentista de JK. Pode-se interpretar a construção como um conjunto, com seus armazéns e um prédio administrativo, em linha reta, ao longo dos trilhos, como se a Estação fosse a locomotiva, o prédio, o tender, e os armazéns, em ambas as extremidades, seus vagões. Seu estilo é o oposto da Estação Velha, sólida construção da arquitetura industrial inglesa, em alvenaria e ferro, sem incorporar o concreto armado (seu primeiro andar tem o piso em madeira). Esse foi o estilo incorporado pela GWBR, para algumas estações de primeira classe, distribuídas pelo interior. Enquanto a Estação Velha representa o lugar de chegar, de ficar, o terminal, a Estação Nova sinaliza novos tempos, novas partidas, trens que vão singrar o sertão e fazer a ligação Recife-Fortaleza, parecendo novos conquistadores: não mais ao mar!

Se, no governo JK, pensava-se em expandir a rede ferroviária (o que foi comemorado com a emissão de um selo, pelo centenário da ferrovia no Nordeste: 1858-1958), ao mesmo tempo, este próprio governo firmava no país, a indústria automotiva. No entanto, menos de uma década depois, o governo militar anunciava extinguir os ramais tidos, então, como deficitários, como registrava o jornal Diário da Borborema de 31 de dezembro de 1965, e entre eles estava o de Cajazeiras, que fora o berço inicial da penetração da RVC, na Paraíba, em direção à cidade de Patos. Começava a amputação do trecho ferroviário, e, na década de 1970, o tráfego de passageiros foi extinto. Como diria, saudosamente, o câmera daquela emissora, enquanto filmava o cenário da minha entrevista: eu, menino, vendi muita laranja, nos trens, daqui, dessa estação. Agora, digo eu, que, também, vendi laranjas em ponto de ônibus, por aventura: nem ‘laranjas’, nem trens.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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