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O 6 de março de 1817

Josemir Camilo. Publicado em 6 de março de 2017.

Por Josemir Camilo

“A República é filha de Olinda!” É assim que que os pernambucanos cantam em seu hino.

Em 6 de março, Pernambuco festeja o bicentenário daquela que é a matriz do pensamento político brasileiro, a Revolução Republicana de 1817. Dali, setenta e dois anos depois, foi que se praticou a República. No entanto, os pernambucanos cantam vitória ou primazia na ideia de República, se referindo à Guerra dos Mascates, em 1710, quando a elite canavieira de Olinda reagiu aos mercadores da povoação do Recife, que queriam o status de vila para os Arrecifes de São Miguel. Um líder do Senado (Câmara) de Olinda, um dos que destruíram a República dos Palmares, do líder Zumbi, e ex-governador da Capitania do Rio Grande do Norte, Bernardo Vieira de Melo, dizem, teria brandido a ideia de Olinda se tornar República, à maneira de Veneza. Preso, foi deportado para Lisboa, por onde se finou, na cadeia.

Mas a revolta de 1817 foi uma aula prática e sangrenta de republicanismo, em que o status quo (ab)usava da pena de morte, com exposição das partes esquartejadas dos subversivos, inconfidentes, conjurados (daí, vem o ditado: “t´esconjuro…”?). O colonialismo (e não a forma adocicada de “Brasil Colônia”) era cruento, que o digam aos que assistiram os magarefes do regime fizeram com o corpo de Tiradentes, em 1792 e com os corpos dos quatros políticos populares, e negros baianos, da Conjuração dos Alfaiates, em 1799, sendo dois soldados e dois alfaiates. O líder, branco e médico, conseguiu ser anistiado, mas as cabeças dos revolucionários negros foram expostas enfincadas em paus, em plena praça baiana. Era o esquartejamento, o prazer da elite política portuguesa colonialista.

Portanto, quando estourou o movimento no Recife, os revolucionários sabiam o que lhes esperavam. Daí, sua plataforma ser radical, no sentido político e copiava de perto o que o movimento baiano preconizara. Eram ideias liberais, do século das luzes, transmitidas por diversas lojas maçônicas. Se os alfaiates caíram em 1799, em 1801 já havia prisão, no Recife, de suspeitos daquelas ideias rebeldes, os irmãos Suassuna, senhores de engenho. Três anos antes, o paraibano, radicado em Pernambuco, Arruda Câmara, fundara um grupo de discussões de ideias liberais que ficou conhecido como o Areópago de Itambé. (In)Felizmente não veria a Revolução pelas ruas, pois faleceria em 1811.

Pernambuco fomentava, devagar, ideias de rebeldia contra o sistema mercantilista colonialista que levava o lucro dos impostos, cerceava a liberdade, em que até se pedia, ao rei, por cartas, licença para portar armas (sendo autoridade civil), viajar para outra capitania, ou voltar a Portugal. Sabe-se de um caso dessa rigidez colonialista que o governador e capitão-mor da Paraíba, solicitava, ao rei, licença para que sua esposa pudesse ir à praia, por uns dias, para tratamento de ‘doenças nos olhos’ (isto, já no século XIX). Era uma camisa de força e chegava cada vez mais gente formada na Europa, principalmente na França, como o próprio Padre e Dr. Arruda Câmara (ex-carmelita), que deve ter presenciado a Revolução Francesa, pois estava em Montpellier, onde se formara. Mas bastava ir até a própria metrópole para se aspirar novos ares. Os padres voltavam formados, alguns, em Coimbra. Padre João Ribeiro Pessoa de Melo, o maior líder da Revolução de 1817, estudou em Portugal e foi assistente de Arruda Câmara.

As ideias novas implicavam em liberdade de comércio internacional, cobrança de impostos deveria ficar no Brasil, igualdade social (utopia, até hoje), discussão sobre a abolição do sistema de escravizar africanos, voto universal, governo republicano, liberdade de pensamento e de imprensa, e a administração da justiça, por brasileiros, por aí. Ideias muito avançadas para a época, a ponto de uma delas, o fim da escravidão, não ter passado no governo republicano, embora o Padre João Ribeiro tenha defendido libertar escravos para a luta em troca de suas libertações.

Embora só tenha durado 74 dias (menos, na Paraíba e menos, ainda, no Rio Grande do Norte) a experiência de um governo republicano sob a forma de diretório foi única no Brasil, até hoje. Amargaram os revolucionários uma repressão pesadíssima, apesar de não terem incitado o povo contra os portugueses, nem terem promovido a repressão direta contra os militares do regime, embora um ou outro membro do Diretório tenha se excedido na autoridade, como um militar de nome Pedroso. Em todos os combates, em Pernambuco e nas capitanias vizinhas, houve cerca de 1.500 pessoas, entre mortos e feridos e umas 800 expulsas do Brasil, ou mandadas, como castigo, para outras capitanias. Os líderes foram enforcados ou espingardeados e, posteriormente, tiveram as mãos decepadas e as cabeças cortadas, expostas em praça pública, enquanto que os troncos eram arrastados por cavalos até o cemitério da Santa Casa. Houve mortes de líderes na forca, ou no paredão, não só em Pernambuco, como na Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceará e na Bahia.

Saiu caríssima a lição republicana de 1817, tanto que só voltaram a apostar nela a partir da década de 1870, para levar ao poder em 1889. E hoje, como sujam a República! É preciso muito lava (a) jato para honrar o sangue de nossos predecessores!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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