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Num Set de Cenas Revolvidas

José Edmilson Rodrigues. Publicado em 19 de julho de 2017 às 23:55

José Edmilson Rodrigues 

Em memória de meu pai Severino Pereira Rodrigues – (comerciante).

Do final da Avenida Getúlio Vargas com a esquina da Rua Arrojado Lisboa (um pouco mais atrás, na Rodagem) saia eu desse entremeio, passando antes nas casas de jogos do senhor Cícero Pinto ou de Chiquinho, onde meu pai era freguês assíduo do jogo de baralho. Adentrando o ponto de jogatina, perguntando por ele e antes que me respondessem, ouvia sua voz.

– Entre. Dizia ele. Dando em seguida uma ficha usada no jogo, a qual trocava por dinheiro com o dono da banca, para ir até a matinal com os amigos no Cine Capitólio.

No caminho, íamos provocando algazarras, tirando frutos das árvores (a memória atiça-me e vem à mente uma casa de esquina com um grande pé de azeitona preta) e acionando as cigarras das casas – pura molecagem, sadia – isso acontecia com ingenuidade. Lembro-me do senhor “Abacate” (não sei o nome dele, era apenas conhecido por Sinhozinho), que possuía uma bodega de esquina com a Rua Nilo Peçanha, e um colega que morava quase em frente, junto com outros garotos da rua, pediu-me para comprar abacates. Entrando na mercearia pedi-lhe alguns e, inocente de que aquilo se tratava apenas de uma brincadeira dos meus amigos no sentido de chateá-lo, já que o mesmo não gostava que o chamassem assim, só que eu não sabia, (abacate era seu apelido). Em resposta, o cidadão pegou de um peso de medidas – não sei de quantos gramas – lembro-me que era dourado – arremessou contra mim, por pouco não me arrancando a cabeça fora e indo direto parar na janela do ônibus da Viação N. Senhora Perpétuo Socorro. Era a nossa trajetória sempre nas manhãs de domingo irmos em direção ao Cine Capitólio, o cinema da minha infância/adolescência e um dos primeiros por mim frequentado e a tarde íamos para a sessão no Cine Avenida, onde comprávamos cocorotes, como também, um bolo pequeno, mole e arredondo na carrocinha/fiteiro de “Seu” Bastos.

Fazíamos filas e na entrada o olhar do senhor José (Seu Zé, aquele senhor baixinho), que nos censurava com o olhar disciplinador. A prática da troca de revistas, dos gibis em frente ao Capitólio com outros frequentadores, inclusive com José Marques Filho, que sempre saía ganhando nas trocas de Tio Patinhas, Aí Mocinho, Fantasma, Tarzan.

Tinha predileção pelas cadeiras do camarote localizado no primeiro andar e onde me empoleirava sempre com os amigos. Daí, tinha-se uma visão mais ampla da tela e do recinto como todo, havendo assim a possibilidade de ficar mais a vontade para assistir ao filme e também se tornar mais fácil para mexermos com as outras pessoas acomodadas nas poltronas da “geral,” no térreo, abaixo de onde estávamos, ora cuspindo, ora atirando chicletes mastigados ou até mesmo gesticulado as mãos em frente do facho de luz do projetor que ficava atrás e pouco acima de nossas cabeças. Inocentes travessuras de meninos. Desenhos animados, dos clássicos e exuberantes longas-metragens de Walter Disney às peripécias endiabradas e hilários exageros da eterna e doce rivalidade da dupla ”Tom e Jerry,” além dos engraçados – Oscarito, Zé Trindade, Mazarope, Grande Otelo, Jerry Lewis, entre tantos. Nas matinês, delirando em meio as grandes aventuras, sempre precedidas pelo “Canal 100,” com as notícias da semana do Brasil e do mundo; reportagens sobre futebol, com aquele prefixo musical tão característico – de Luis Bandeira “Na Cadência do Samba – Que Bonito É -,” numa versão instrumental de Waldir Calmom e Seu Conjunto e hoje tão nostálgica:  tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam tam… Surpreendo-me tentando relembrar seus acordes.

Na expectativa, esperávamos sentados o início do tão ansioso filme, e nesse ínterim, ouvíamos melodias de maneiras compreensivas e hoje sinto saudade de ouvi-las nos instantes do ontem.

Antes de começar, haja a comer pipocas, amendoins, aquelas balas azedinhas, diante disto, aproveitava-se para jogar restos nos outros. Assim, de vez em quando, recebia de volta outros restos a arder nas costas.

Vi muitos westerns do tipo “spagueti” italiano, Joe Dinamite, Django, e outros bons faroestes americanos, como também, épicos, musicais, aventuras.

Mais tarde já crescido, e logo após a saída da casa da namorada (hoje, minha esposa, Graça), ia ao Capitólio com Walter William, (o qual também, deixava a casa de sua namorada) para assistirmos a sessão “Bacurau,” e encontrar os amigos, Ademir Ferreira e Elosmar Castro (Loló), e esses últimos, éramos vizinhos.

Num set de cenas revolvidas do cinema Capitólio, a mais antiga sala de projeção em funcionamento na época na Paraíba, trazendo à memória sua inauguração em 14 de novembro de 1934, apresentando a película inaugural: Cavadoras de Ouro, um musical.

O cinema, ou seja, o cinematógrafo, aparelho inventado pelos irmãos franceses Lumière em 1895, o qual reproduz na tela o movimento, por meio de uma sequência de fotografias projetando imagens de cenas animadas; e, para os dias atuais, aparelhos bem mais sofisticados.

O Capitólio (texto escrito em 14 de novembro de 1994, quando dos sessenta anos do Cine Capitólio), foi uma casa de espetáculos, na minha memória afetiva, lúdica, entretenimento de encher os olhos, uma casa de diversão, fazendo parte da minha formação cultural. Não devemos esquecê-la para que, no futuro, não esqueçamos que a memória é a caixa da história e a história se faz através do tempo, transformando-se em tradição. Cinema é o entretenimento mais vivo e ativo para a memória, é glamour e encantamento, tradição cultural.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

José Edmilson Rodrigues

* Advogado/Mestre em Literatura e Interculturalidade/Ensaísta.

falecom@fhc.com.br

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