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Nossa Academia, sem fardão e sem espada

Josemir Camilo. Publicado em 30 de novembro de 2018 às 10:34

Neste fim de ano, a balzaquiana Academia de Letras de Campina Grande, aos seus 37 anos, tenta recuperar seu fôlego, em busca de preencher 14 cadeiras que se encontram, até agora, vacantes. Certos, já estão três candidatos para fechar o ano: o crítico literário e professor, José Mário da Silva Branco, que já é imortal, membro da Academia Paraibana de Letras, além dos romancistas regionalistas, Paulo Marcos Cavalcante e Efigênio (“Eita Gota”) Moura. A Academia se renova e com gente altamente produtiva, o que lhe dará mais transparência social e cidadã. Estes dois romancistas abrangem o universo da vida Cariri, em que um já se encontra até vertido para o inglês e outro, roteirizado para o cinema.

A ALCG tem sobrevivido a duras penas, uma vez que não possui incentivo financeiro de porte algum, salvo, agora, nesta administração que foi introduzido o pagamento de anuidades. Apesar de ser reconhecida de utilidade pública pela municipalidade e pelo Estado, nenhum parlamentar efetuou intervenção para uma lei que destine recursos (o ideal seria ter uma sede própria da Casa de Amaury Vasconcelos), um percentual para sua manutenção, vivendo esta representação do Jardim de Academus, da hospitalidade que uma ou outra instituição lhe concede. Os antigos mecenas se calaram e a Revista da Academia, há dez anos, está sem atualização. Até mesmo os acervos de imortais não são doados à Academia, o que mantém sua biblioteca e arquivo bastante magros, inclusive não se podendo sequer fazer um memorial do ‘dono’ da Casa, por nada dispor do seu acervo, até então.

Já ouvi, no cafezinho, tipo de perguntas como: o que a Academia faz? Mal nutrida de pecúlios e de acervos, sem sede própria, a tentativa tem sido a de se manter viva, respirando, sinalizando: “olá, autoridades e elites campinenses, ‘regardez moi!’” A ALCG não consegue nem pensar em montar qualquer atividade, com apenas uma dúzia de espadachins (sem fardão e sem espadas), já que meia dúzia de confrades e confreiras tem dificuldade de locomoção e cerca de uma dezena deles mora fora da cidade e do Estado. Reformas urgentes no seu Estatuto são necessárias para, no mínimo, delinear, como faz a nossa matriz, a Academia Brasileira de Letras, estabelecer, um quórum mínimo de membros que residam fora da cidade. No caso específico de Campina Grande, uma ideia seria a de apenas aceitar residentes na cidade e um pequeno percentual de residentes no Compartimento da Borborema e na Capital: dos quarenta membros, trinta deveriam morar na cidade ou no que chamam de área (sub)metropolitana. A ver.

A falta, talvez, de visibilidade ou desconhecimento por parte de alguns setores, tem levado ao ponto de se criar uma feira literária, na cidade, com total abstenção de contatos e convites para com a Academia. E, pior ainda, concorrendo com dia de posse de acadêmico. Tudo isto nos deixa apreensivos, não só com o futuro da Academia, como também apreensivos diante do vazio que se começa a criar, no geral, entre a língua escrita e lida e as novas modalidades midiáticas, em que não se vai ler além de frases de twitter ou de whatsapp. Como ir-se-á ler livro como em Busca do Tempo Perdido ou Cem Anos de Solidão? Há muitos analfabetos digitais e funcionais, que nem mandam textos, mesmo com erros ortográficos, ou com esta nova língua franca pós-moderna: kd vc, sds, sdd!; mais, ainda: mandam apenas emojis; outros, por não escreverem, mandam, apenas, áudios.

Apesar das dificuldades, estivemos presentes em quase todos os lançamentos; em boa parte, a Academia foi representada por seu Secretário, Bruno Gaudêncio, que fez lançamentos na cidade, na capital e até em São Paulo de sua lavra poética. Participamos de Mesas Redondas e escrevemos comentários literários na imprensa escrita e online. Engana-se quem pensa que a função, no caso exclusivo do executivo, o Diretor-presidente, sua atividade se resuma a pensar e representar a Academia. Bater o comércio atrás de material para as opas, tecidos, fitas, passamanarias; arranjar costureira e gastar perna e tempo em acompanhar a confecção da tão venerada, veste talar, como sonhava Amaury Vasconcelos; mandar cunhar novas comendas, e ir atrás de cada sócio para o conhecer, visitando-o, reanimando, e sobretudo, levando uma Resolução de cobrança de anuidade, sem o que a Academia definha ano a ano. O trabalho burocrático termina por ocupar a maior parte de nossa energia, levando-se em conta que, por não termos sede própria, isto implica em malabarismo de horários e de manutenção da nossa humilde casa, hospedada pela gentileza dos que fazem esta cinquentenária instituição cultural, a FURNE.

Urge organizar arquivo e biblioteca (esperamos doações), pensar numa nova edição de nossa revista que, agora comemora exatos 10 anos da última edição e, sobretudo cuidar da memória dos antigos, patronos e fundadores, bem como dos insignes e recentes partintes para a imortalidade. Ao contrário, e infelizmente, as famílias dos nossos imortais não ainda nos legaram com os acervos do nobres membros para o crescimento de nossa biblioteca. Aguardamos sine tempore, para que a memória de patronos e sócios possa ser mantida e atualizada por seus sucessores. Boas-vindas aos novos espadachins!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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