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Nobel de Literatura, um pecado?

Josemir Camilo. Publicado em 5 de novembro de 2016 às 7:37

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* Por Josemir Camilo

Parto de uma declaração do tenor Andrea Bocelli sobre a indicação do cantor Bob Dylan: “Foi um pecado porque a literatura é algo importante na vida de qualquer um de nós. É um problema filho dos nossos tempos. Premia-se aquilo que recebe mais atenção de todos e, como a mídia premia sobretudo artistas do gênero, e os cantores em primeiro plano, acontece que a atenção das pessoas leva a essas escolhas”, disse o tenor aos jornalistas que estavam no local neste sábado (Site do UOL, acessado em 29/10/16).

A pasmaceira foi tão grande, acho, que ninguém protestou, comentou, ou sei lá o que, sobre essa escolha, que só agora vejo alguém ‘público’ discordar da doação do prêmio. A primeira coisa que pensei foi: já inventaram o Nobel de música? E, imediatamente, pensei em Vinicius de Moraes. Compositor por compositor… e como a intelectualidade brasileira rejeitou o status de literato ao ‘poetinha’. Maior poeta é Chico, mas o seu a seu dono.

Literatura é densidade. Letras de canções, por mais que digam da alma, diz pouco, diante do épico, da densidade literária de um Ohran Pamuk, Saramago, Gabriel Garcia Márquez, Elias Canetti, Camilo José Cela, Vargas Llosa, V. S. Naipaul, fora os inúmeros que ainda não li. Não há mais literatos no mundo? I´m so sorry!

Literatura, para mim, leigo, resulta em revelar a condição humana, o que só pode ser constituída através de uma obra e não de um livro, só, muito menos através de Lps (?) e CDs. É só uma opinião. Não sou expert em literatura, tampouco em lyrics (letras de canções, em inglês). Mas, o que chama bem a atenção no argumento do tenor é o suporte, a mídia. De todos as indicações anteriores ao prêmio, sempre foi o livro o suporte característico. Nessa vez, não o foi. O livro perdeu para as mídias digitais e tele auditivas?

Além disso, as letras, em canções, só adquirem um significante com o estro melódico, que desaparece, ou muda, quando apenas escritas. O significante é constituído na relação letra/melodia/ambiente/público alvo. Letras de canções, sozinhas, não adquirem literariedade. Literatura, por sua vez, se define na própria letra/palavra, carregada de densa literariedade, daí seu significante, quando só os magos do ofício conseguem nos dar. Penso como leigo, aprendiz. Que me perdoem os da seara.

Os nobres calígrafos continuarão seu trabalho de Sísifo, na biblioteca de Jorge Luís Borges, esse misto de inferno e paraíso, lugar de condenação e sublimação, a literatura.

*Professor

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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