Noaldo Ribeiro: O Morcego e a Coruja

Noaldo Ribeiro. Publicado em 20 de fevereiro de 2020 às 10:25

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Deixando de lado o desempenho ecológico do morcego, prendo-me apenas a sua popular imagem pejorativa, vinculada a assombrações diurnas e noturnas. Não pretendo espantá-lo, mas aniquilá-lo de vez ao alcance do meu olhar. Será que é possível? Augusto dos Anjos diria que não: “A Consciência Humana é este morcego!/ Por mais que a gente faça, à noite, ele entra/ imperceptivelmente em nosso quarto”. 

Este mamífero com jeito de ave transcende os estudos biológicos e a poética de Augusto o apresenta como uma simbologia vampiresca, lembrando a também simbólica meia-noite – momento de sua assustadora aparição. 

No meu caso, ele não aparece apenas na escuridão noturna. Em pleno clarão solar, lá estão suas asas agourentas, afugentando o taco de paz que pensara ter direito. Pior, Dr. Freud não me explica nada, se bem que nunca me dispus a sentar-me num divã. Talvez tenha medo de relaxado, no veludo do seu conforto, venha a visualizá-lo com maior nitidez, levando-me a beira do abismo do pânico.

Buscando uma solução, passeie por ruas largas e estreitas e só encontrei becos sem saída. Mas a imaginação me fez recordar de um exótico e bárbaro embate, cultivado ainda hoje por muita gente nos vários rincões do país: A Briga de Galo: numa pequena arena, coloca-se um par de galos em cujas patas são postas esporas mortais. A plateia, por vezes, nem um pouco ateia, vibra quando aquele de sua preferência golpeia o seu adversário, fazendo-o sangrar. A contenda chegar ao fim quando um dos “gladiadores” é abatido fatalmente, sem direito a enterro, talvez pela ausência de um João Grilo, com a astúcia suficiente para convencer o bispo com o argumento da propina, como bem nos narra Ariano Suassuna na obra O Auto da Compadecida.

No caso em questão, a estratégia seria um pouco diferenciada e bem mais complexa. Arquitetar-se-ia uma forma de atrair num mesmo espaço e tempo o morcego e a coruja – predadora natural deste incômodo atormentador de gente e de mente. O resto é ficar na torcida para que a coruja saia vitoriosa. Contudo, resta uma torturante dúvida: e se após a eliminação do morcego a coruja passe a assumir a função aterrorizante do exterminado? Dizem, também popularmente, que ela – com seu rasgo estridente – anuncia a morte.

Antes de publicar essa pequena história da carochinha, pedi a um amigo para lê-la. Ele disse que a historieta não combinava com meu estilo meio bossa nova e rock and roll. Eu o respondi: É pra quebrar a rotina. Trata-se de uma espécie de texto de autoajuda que, dependendo do leitor, pode ter efeito avesso.  Porém, faça de conta de que seu conteúdo torto é mais leve do que Alice no País das Maravilhas.

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