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Noaldo Ribeiro: O crime compensa?

Noaldo Ribeiro. Publicado em 20 de novembro de 2020 às 10:24

Ao longo da história as coisas ganham novos significados. A vaidade, por exemplo, foi consagrada, por Dante, na Divina Comédia, como o primeiro dos pecados capitais – aqueles que uma vez cometido leva o indivíduo direto pro Inverno, no caso específico para o seu primeiro anel.

 Contemporaneamente, pontua Karnal, este sentimento é tido como sinal de bem-querer a si, motivo de elevação da autoestima, ingrediente fundamental para galgar degraus na escada da mobilidade socioeconômica.

Este é apenas um caso, mas o percurso da humanidade está recheado deles. Caso realmente seja assim, uma incômoda pergunta haverá de ser feita: O crime compensa? Mais incômoda, ainda, é uma das possíveis respostas: Pode compensar. Tudo depende do resultado da contenda fatal entre a Barbárie e a Civilização.

 Para dar consistência a essa interpretação, não bem-vinda aos ouvidos de muitos, invoquemos a situação de metrópoles como Rio e São Paulo aonde o crime organizadíssimo vem ganhando sucessivas batalhas, o que transformam práticas delituosas em ações constitutivas do cotidiano.

Nessa corrida perigosa, o Primeiro Comando da Capital (PPC) deu um passo de longo alcance – registra a FOLHAPRESS – ao criar o Setor CDHU ou Setor dos APs, (Companhias Habitacionais do Estado e da Capital). Ao contrário das instituições oficiais, não se exige do futuro morador uma infinidade de certidões, avalistas nem contracheques. Tão pouco o submete a enfrentar longas filas sob o sol, ou um “QI” (Quem Indica).

Basta está disposto a ingressar nas fileiras da facção, ser parente de algum presidiário, ligado à facção e apenados contemplados com a liberdade. Despesas com condomínio, prestações do imóvel e outras, são assumidas pela organização.

 Embora nesta última quarta, 18, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo tenha prendido vários integrantes da facção, a ausência do Estado e o discurso desconectado dos partidos políticos em áreas vulneráveis das cidades brasileiras, o embate continua e o desfecho fica em aberto.

Não se trata da luta travada entre Lúcifer e o Arcanjo Miguel. Trata-se, isto sim, de uma luta no mundo sensível, palpável e concreto. Repensar radicalmente o fazer político, elaborar  políticas públicas que, não apenas no discurso, mas na efetiva prática, torne o cidadão livre, imune a tornar-se preso a uma penitenciária sem grade

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