Noaldo Ribeiro: Melhor idade de quê?

Noaldo Ribeiro. Publicado em 7 de maio de 2020 às 8:43

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Sempre fui contra o corporativismo, traduz um egocentrismo grupal, divide as pessoas, transforma o tecido social numa imensa colcha de retalhos. Portanto, não pretendo fazer uma defesa em causa própria, quer dizer, advogar para aqueles que ultrapassaram os sessenta anos – designados pelo “código” do politicamente correto pela generosa adjetivação de pessoas da melhor idade.

Esta postura de nomear grupos sociais com um linguajar dito digno, talvez tenha sido inspirada durante os efervescentes anos 60, quando categorias sociais, até então “invisíveis”, passaram a mostrar-se na cena do amplo leque reivindicatório daquela lendária época. Entretanto, foi entre 80 e 90, do século passado, que passou a figurar no vocabulário vigente, fruto do que se convencionou denominar de guerra cultural entre atores políticos distintos, tendo como palco os Estados Unidos da América.

Como se fora uma mensagem de Twitter, ressalto, dentre os vários posicionamentos sobre essa nova “Tábua de Moisés”, apenas, dois deles. Uns, ressaltam que determinados adjetivos dirigidos a certos grupos soam ofensivamente agressivos, tornando-os cada vez mais oprimidos e excluídos. Outros entendem que o linguajar dirigido, seja a que categoria for, é parte constitutiva dos costumes, da tradição da cultura, e que a questão da opressão é de natureza estrutural. Esmerar as palavras não resolveria a posição que cada grupo ocupa na sociedade.

A discussão parece interessante, porém não pretendo promovê-la, pelo menos aqui.  A abordagem que me interessa vincula-se a um impacto, provável de ocorrer, em decorrência da pandemia da COVID 19. Quem teria prioridade de se valer, nos hospitais, dos tão procurados respiradores? De pronto, os velhos, perdão, as pessoas da melhor idade seriam descartadas – hipótese que, vez por outra, tem sido ventilada nas mídias.

Mesmo sem emitir juízo de valor sobre essa possível escolha, foi natural voltar minha atenção sobre o politicamente correto, colocando-o, desta feita, em estado de suspeição. Perguntei aos meus botões: Neste caso, em especial, são as palavras polidas que discriminam as camadas sociais mais vulneráveis ou será a fragilidade estrutural dos sistemas de saúde, mundo afora?

A partir de então, veio, sob a forma de tempestade, as mais esdrúxulas especulações: E se vir num futuro próximo a COVID 20, 21, 22… Quais serão os grupos a serem expostos à própria sorte? Os negros? As feministas? Os indígenas? A comunidade LGBT? As pessoas especiais? Será que estes, tão festejados, atualmente, pelo politicamente correto, serão sentenciados à morte?

Não sei, só sei que as pessoas da melhor idade não mais se postarão como alvo. Estas já estarão sob a terra, enterradas numa imensa vala comum.

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