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Noaldo Ribeiro: Esquerda, direita, volver!

Noaldo Ribeiro. Publicado em 3 de julho de 2020 às 7:53

Paraíba Online • Noaldo Ribeiro: Esquerda, direita, volver!

Bem antes das eleições presidenciais e, também depois delas, se intensificou no país um clima de preocupante polarização. Nunca se ouviu falar tanto, tão insistente e rispidamente, beirando a belicosidade, em direita e esquerda. As redes sociais transformaram-se num front de guerra, onde não se discute posições políticas ou ideológicas, mas, simplesmente, se atiram farpas e torpedos com o fim de eliminar o discordante – atitude pétrea do fascismo. Deriva daí, discorrer, mesmo que vagamente, sobre os conceitos de direita e esquerda e, talvez, identificar o momento de volver para outra posição, se é que isto seja possível.

Ademais, conduzir essa peleja nos moldes que temos observado é simplificar em demasia a temática, para não dizer algo mais forte, empobrecê-la, falar de algo sem saber do se trata, desprezar as suas origens e evoluções, conduzindo-se pelo estreito caminho da lógica binária, bipolar, bem própria das torcidas de futebol, porém usando a violência do UFC.

Estudiosos, historiadores assinalam que estes termos originaram-se a partir da Revolução Francesa. Tendências distintas, na assembleia recém-instalada, digladiavam-se na tentativa de assumir a hegemonia do processo. À direita, aboletavam-se os girondinos, cuja postura se encaixava em moldes cautelosos e conciliadores. À esquerda, as cadeiras dos jacobinos, intentando transformações radicais. Mais que um mero posicionamento geométrico, ganharam um víeis político\ideológico e adquiriram, com o correr do tempo, novos significados. Para entendê-los é preciso, no mínimo, buscar suas raízes no pensamento de Edmund Burke e Jean Jacques Rousseau e acompanhar outros pensadores que inspiraram aquilo que veio a se entender por estas expressões, ora em ferrenho embate.

Dando um pulo de proporções demasiadamente elástico, até bem pouco tempo, boa parte do mundo, denominava os partidários de esquerda os defensores do marxismo que projetavam no horizonte – após um acirrado e violento embate entre as relações de produções e as forças produtivas – uma sociedade socialista, um modo de produção transitório para, em seguida, instalar-se o comunismo (sociedade igualitária, sem classes, economia planificada, sem exploração de mais valia e sem alienação, onde o homem, finalmente, encontrar-se-ia consigo). Mais adiante, Antonio Gramsci e os pensadores da Escola de Frankfurt deram nova coloração, introduzindo novos conceitos.

Já o rótulo de direita, foi dado aos seguidores da vertente liberal, concebido por Adam Smith e outros defensores da economia de mercado, livre concorrência, defesa da propriedade privada, enfim, o que hoje se entende por capitalismo que, em tempos mais recentes, oxigenou-se com as contribuições de Frederick Hayek e Milton Friedman e por toda Escola de Chicago. Daí em diante, cunhou-se o adjetivo neoliberalismo, atualmente, sinônimo de direita.

Até aí, nada de bárbaro. São dois projetos opostos de sociedade humana. Um, em defesa de um Estado forte, intervencionista, objetivando a socialização dos meios de produção. Outro, baseado na acumulação de capital e creditando ao mercado a resolução de todos os males, sem a necessidade da mão pesada do Estado. Assim, seria razoável o estabelecimento de uma convivência, conflituosa, é verdade, mas civilizada entre estas variantes, mesmo porque nos anos 80, principalmente no Brasil, a tese de que a democracia é um valor universal prevaleceu, sem que houvesse contestação das várias vertentes políticas. Se assim não o foi, alguma força política está omitindo-se ou mentindo.

Ademais, é problemático se rotular, como quem carimba um papel, alguém como de esquerda ou de direita. Se voltarmos a Marx e Engels, veremos que no processo revolucionário o chamado lupemproletariado – fatia excludente da sociedade – pouco contribuiria para o desenvolvimento das forças produtivas. Igualmente, as minorias (negros, mulheres, gays, lésbicas – não havia o movimento LGBT…) não eram considerados e, ainda não o são nos países ditos de esquerda a exemplo de China, Cuba, Venezuela e outros. Entretanto, notadamente no Brasil, quem não defende políticas afirmativas para tais extratos sociais são caracterizados de direita.

De forma semelhante, para os chamados liberais, arautos do capitalismo, o Estado não é tão mínimo como se apregoa. Na hora de defender seus setores produtivos, não hesita em prover subsídios ou, quando necessário, taxa produtos importados, desequilibrando o movimento “natural” do mercado.

Decididamente, a questão não é tão simples. Quando o eminente senador Eduardo Suplicy propôs um programa de renda mínima, mais tarde batizado de Bolsa Família, muita gente o criticou pelo fato do mesmo ter sido inspirado pelas ideias de Milton Friedman – um dos pais do neoliberalismo, por conseguinte, da mais legitima direita.

Como sair por aí, então, estampando na testa das pessoas tarjas de esquerda ou direita, sem o mínimo de critério? Isto não seria uma forma de deseducar o povo varonil do nosso Brasil, turvando a sua consciência política – ferramenta imprescindível para transformar a sociedade?

Se não é movediço, o terreno é, no mínimo, escorregadio. Há, sim, como volver! Volver para a realidade do século XXI. Entendê-la que a sua marca é a diversidade e que o nosso desafio é respeitá-la. Caso contrário, correremos o risco de retornarmos ao passado de Átila – o Rei dos Unos, Baihunos!

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