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Noaldo Ribeiro: Corona Vírus e a Banalização da Morte

Noaldo Ribeiro. Publicado em 1 de agosto de 2020 às 7:37

Apesar da memória cada vez mais curta, costumo me lembrar de o que acontece no 3º mês do ano. O motivo é simples. Neste mês fico mais velho e, abstraindo a tradição, não entendo bem porque me parabenizam. Às vezes tenho a estranha ideia de que aqueles que postam cartãozinho no Facebook, ensejando o badalado “parabéns pra você”, pensam: “Vamos festejá-lo, a idade avança em ritmo acelerado, logo, logo o nosso amigo se livrará da barra de viver”.

Embora o poeta já sentenciasse que “viver é o grande perigo”, é consensual, pelo menos dentro dos padrões da civilização ocidental, a celebração da vida e o lamento da morte.

Mais o que é que tem a ver o mês de março com estas elucubrações filosóficas de terceira? Ora, ora, foi em março que a Organização Mundial da Saúde enlevou ao status de pandemia a nova Corona Vírus, batizado de COVIDE 19.

De lá pra cá, o assunto dominou as manchetes das pequenas, médias e grandes mídias. Viu-se na prática, ao vivo, em cores e em preto e branco, o significado de vala-comum. Dezenas de pessoas enterradas em cemitérios improvisados, sem missa de corpo presente e, no mais das vezes, sem cruz e identificação.

Embora a canção dos sessentas poetize: “… esqueça os mortos que eles não levantam mais…”, vê-los embalados em sacos plásticos e soterrados em terra fria, provoca, em crentes e ateus, embrulho estomacal, e tempestades sísmicas na alma e na mente dos respectivos. Enfim, instala-se o medo.

Medo, inicialmente promissor, propulsor da tomada de consciência de que este inimigo invisível não se trata apenas de uma “gripezinha”, mas de um algoz devorador de vidas.

Exatamente no âmago deste drama, eis que se revela como certeira a frase: “O Brasil não é um país sério”, atribuída, segundo alguns, a Charles de Gaulle.

Assim, senso político e senso comum e, também, ciência, foram postos na mesma vala (não aquela abarrotada de corpos), mas no sentido de tornarem-se dogmas incontestes.

 Até medicamentos ganharam selos ideológicos e, no final das contas, a confusão generalizou-se, degenerando, ao mesmo tempo, o lockdown, isolamento social, uso de máscaras e outros protocolos que naquele fatídico março – com parabéns pra você e tudo – se apresentavam eficientes.

Embora as mídias, notadamente as grandes, continuem a abordar as perdas e danos dessa bactéria (viral não apenas no sentido das redes sociais), além dos alarmantes casos de infecção e óbitos, nada mais sensibiliza, exceto a alguém que perde um ente bem próximo, bem próximo mesmo, mas que nem por isso contagia o sentimento da coletividade.

Sem pretender interpretar o fenômeno do desdém pelo número de mortes, lembro-me do bolero “Soberano Desprezo”, de Bráulio Tavares, quando diz num contexto completamente diverso: “São aquelas guerras no estrangeiro\ que perturbam o mundo inteiro\e eu nem ligo”.

É cedo para discorrer sobre o capítulo final, mas, por enquanto, a sensação é a de que as mortes (decorrentes dessa gripezinha) não só se banalizaram, mas tornaram-se – desculpe a redundância – naturais, casos comuns do cotidiano, meras estatísticas, linguagem indigesta para o distinto público.

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