Fechar

logo

Fechar

Noaldo Ribeiro: Breve passagem pelo Limbo

Noaldo Ribeiro. Publicado em 30 de janeiro de 2020 às 13:19

Paraíba Online • Noaldo Ribeiro: Breve passagem pelo Limbo

Após uma cansativa noite num hotel barato do Recife, acordei-me com ressaca de sono mal dormido. Teria que viajar a João Pessoa. A rodoviária da “Veneza Brasileira” fica um pouco distante de tudo e de todos de forma que ir de táxi custaria uma pequena fortuna. 

O metrô é bem mais em conta, contudo vive-se lá dentro o que Dante chamaria de Limbo – o primeiro anel do inverno. Embarquei inocentemente, talvez porque não vi a placa com os dizeres: “Ô vós que entrai, deixai de fora toda a esperança”. 

Após uma espera de mais de vinte minutos o trem aporta na Estação Joana Bezerra. Por sorte, encontrei um espaço para sentar-me, apertado, é verdade, mas melhor do que seguir viagem de pé, tendo que segurar as malas recheadas de bugigangas.

Ao meu lado uma senhora tentava acalmar seu filhinho, dando-lhes gritos. Pensei comigo: trata-se de uma nova terapia, esquisita, porém eficiente, exceto aos ouvidos alheios. Até aí tudo bem. Sabia que não ia encontrar o conforto dos TGVs que fazem o percurso Paris-Genebra. No entanto, episódios estavam pra acontecer que me deixaria tonto.

De repente, como vindos de além apareceu um rapaz vendendo água mineral. Nada mais natural diante daquele calor. Depois, um pentecostal, solitariamente e sem encontrar fiés, pregava a palavra do Senhor, sem a ordem divina de pregar no deserto. Um rapaz obeso de pernas roliças vendia um pacote de “nego bom” por dois reais e, finalmente, um afrodescendente seguramente fã de Bob Marley e de bigode fino, anunciava ao microfone portátil a venda de pendrives com o melhor da música brega. Gostei do rapaz, bem humorado e buscando catar o pão de cada dia com um largo sorriso.

O problema que me acometia não era a falta de conforto, mas a mistura de falas que, pelo menos para mim, suava como um rosário de línguas estranhas. Minha cabeça começou a girar e tive medo de perder o resto de neurônios, já fragilizados, do meu fragilizado cérebro. 

Tentei abstrair aquela confusão. Pensei em Marilyn Monroe com seu vestido branco, teimosamente esvoaçante, porém não conseguia me focar. Tudo que eu conseguia imaginar era o que acontecia lá fora: o sol batendo, o sol batendo. Dentro do vagão, o suor descendo, o suor descendo.

Não sei se eu era o único a me sentir tão conturbado, acho que não. Caso estivesse correto estaria ocorrendo um esquisito fenômeno de dezenas de pessoas em constante transmissão de pensamento. Só cheguei a esta conclusão após o metrô chegar ao meu destino final – Terminal Integrado de Passageiros (TIP).

Mesmo com a camisa ensopada e ouvidos ainda ressoando o maldito falatório, parei para fazer umas contas. Cada vagão, sem receber o devido zelo da empresa que administra o metropolitano, comporta – para mais ou para menos – 100 sofridos passageiros. São quatro vagões para cada destino, assim 400 sofridos passageiros seriam vítimas da mesma agonia. Isto levando em conta que cinco camelôs, igualmente sofridos, ocupavam cada compartimento, num total de 20.

Macacos me mordam. É muita gente para simultaneamente sentir a mesma sensação. Sem uma resposta, senti-me psicótico. Não identificava a linha que separa o real da fantasia.

Finalmente, dissipei as minhas dúvidas, graças a uma lembrança de “De Frente Pro Crime” de João Bosco e Aldir Blanc. Ao ver um corpo estendido no chão, “… veio o camelô vender anel/ batom, perfume barato/e a baiana para fazer pastel/ e bom churrasco de gato…”.

A situação não é a mesma, mas, de longe, guarda certa similaridade: “Olha a água por 1 real; Só a verdade vos libertará; 1 pacote de “Nego Bom” por 2 reais; Compre pendrive a preço de banana”.

Rogo que da próxima vez tenha eu a graça de portar dinheiro suficiente para pegar um táxi. Caso venha a custar os olhos da cara, que eu vá de “Uber” ou, até mesmo, num transporte clandestino. Não descarto a possibilidade de novamente viajar no metrô recifense. Contudo, será a última opção.   

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Noaldo Ribeiro
Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube