Noaldo Ribeiro: Big Brother – a palavra do Mestre

Noaldo Ribeiro. Publicado em 7 de abril de 2021 às 12:26

Há nove anos, Boni, o pai de Boninho, assim falou sobre o programa comandado pela sua cria: “O Boninho faz o melhor Big Brother que eu conheço no mundo inteiro. Eu conheço vários. Ele se preocupa com essa parte comportamental: encontrar pessoas interessantes e tudo isso. Mas, eu, pessoalmente, prefiro um texto do Dostoievski, do Dias Gomes, do Machado de Assis, do Jorge Amado. Eu prefiro, no lugar do texto daqueles caras que estão falando aquelas bobagens…”.

Boni reconhece que o reality premia a emissora com robusta audiência e que seu filho “tira leite das pedras” para torná-lo inteligente, embora, em certa altura de sua fala, demonstre restrições ao entretenimento.

Independente de qualquer coisa o BBB 21 está de vento em polpa, alcançando um público de 5,9 milhões de pessoas em média. A explicação para este êxito, diria em nível de palpite, que nem todos, a exemplo de Boni, aproveitam o tempo, para deliciar a leitura de Dostoievski, mesmo porque ninguém é igual, notadamente sob o ponto de vista intelectual. Muitos, aliás, preferem uma leitura dinâmica do Tio Patinhas.

Assim, boa parte da população dá preferência “as bobagens” ditas, e torcem pela aparição de cenas sensuais, preferencialmente picantes, ou mesmo imaginam-se que um dia estarão “na casa mais vigiada do Brasil”, metendo-se em conflitos, pondo-se como mediares deles e, principalmente, sonhando em ganhar o prêmio milionário – meta que os leva a contrair amores, confirmando o aforismo de Nelson Rodrigues: “Dinheiro compra até amor verdadeiro”, se bem que findam arreganhando aspectos indesejáveis de suas personalidades.

Os brothers, também, galgam conquistar os famosos 15 minutos de fama, profetizado por Andy Warhol no final da década de 60 do século XX, ou, a depender de algum talento, estender por longo tempo, o sonhado estado de notoriedade, tornando-se artistas, fazendo anúncios etc.

Por outra via, o BBB é um entretenimento alvissareiro, principalmente nesses tempos de tempestade, embalado pelos ferozes ventos da pandemia. Mas não é só isto. Lá, testa-se a vulnerabilidade das pessoas. Se na vida real elas escondem traços de sua personalidade, criando personagens, conforme o cenário da hora, dentro da “casa de vidro” essa tendência se potencializa. Cada um quer ser o que eles acham que o público quer que eles sejam.

É certo que o confinamento acelera a veracidade, dita pelo mesmo Nelson Rodrigues: “De perto ninguém é normal”. No entanto, o arsenal de câmaras, com faro de dobermann, deixa, de certo modo, os participantes como se fossem personagens de folhetim, com direito a modelos humanos de toda ordem.

Contudo, Boni, o Mestre, tem razão. Boninho sabe escolher a turma. Creio que propositalmente heterogênea, como heterogêneos são os vários extratos sociais. O importante, porém, é que na vivência louca da “casa”, emergem pautas contemporâneas, bem ou mal tratadas, mas isto já é outra questão.

Por fim, aguardo que no final a campinense Juliette saia com a faixa de campeã. Não pousou de coitadinha, de vítima incapaz, como os nordestinos inocentemente costumam se apresentar. Conviveu e, quando necessário, enfrentou famosos educados e mal educados. Acabou caindo nas graças do país.

Não à toa, Capilé compôs “Canta Juliette”: https://www.youtube.com/watch?v=-oMDAaRwaEA

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