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Noaldo de Souza Ribeiro: Belchior – o sentido do absurdo de Zé Limeira

Noaldo Ribeiro. Publicado em 10 de setembro de 2020 às 8:43

Nas minhas minúsculas postagens, sempre que se encaixa, tenho feito uso de uma frase de Louis Althusser: “Toda citação é uma forma de interpretação”.

Compulsivamente – falo como testemunha ocular – Belchior devorava livros, adentrando em todas as áreas do conhecimento. Isto, desde o cancioneiro popular, passando por Jaques Le Goff e Pierre Nora (ícones da Nova História Francesa), sem desprezar os clássicos e os filósofos contemporâneos, incluindo os pós-modernos.

Não por acaso, estava adaptando a Divina Comédia de Dante com os seus irretocáveis dotes de calígrafo, adornando com desenhos, também de sua lavra, com o fim de popularizar o entendimento e acesso da obra do gênio florentino.

Seu óbito foi prematuro e, atualmente, interpretam-se o sentido de suas canções, segundo a subjetividade de cada um, o que remete a citação de Althusser e que faz desvelar que tudo está em movimento, principalmente quando visto pelos olhos do presente.

A partir deste quadro, pincemos alguns pontos gerados pela explosão, no decorrer 2010, da música Sujeito de Sorte, de sua autoria, a ponto de tornar-se hino de bloco carnavalesco, estampar camisetas, pôsteres e outros tipos de souvenirs, sem falar que em 2020, só para citar um exemplo, foram realizadas 1.223 postagens no Instagram com a hashtag #ANOPASSADOEUMORRIMASESSEANOEUNÃOMORRO, além do Google ter registrado 40.600 páginas reproduzindo a mesma frase.

Sobre este verdadeiro fenômeno (afinal o estouro desta bomba poética só veio explodir 47 anos após o seu lançamento) já foi muito abordado, pelos grandes jornais e sites, por pequenos blogs e, fundamentalmente, pelas vozes anônimas de centenas de milhares de jovens de 18 a 35 anos, batizados de geração Millennial engajados ou geração Y – a moçada que vivenciou a virada do século e uma porção que já nasceu sobre sua aura, se bem que a conceituação deste extrato social ainda é bem difusa.

Mesmo assim, não desconsiderando o que foi escrito até aqui sobre, resolvi, também, emitir meus palpites, ressaltando algumas peculiaridades e descartando, desde já, que a frase, presente em Sujeito de Sorte, que virou bandeira trata-se de um plágio ou apropriação de versos do enigmático poeta paraibano Zé Limeira. Isto foi especulado, minoritariamente, nos tweets da vida, confirmando a assertiva de Humberto Eco de que “As redes sociais deram voz aos imbecis”.

Na verdade Belchior, como anteriormente dito, era atento a todas as vertentes de pensamento. Ele sabia o que era um mote e que o mesmo deveria ser glosado, quer dizer, desenvolvido segundo determinadas regras, se bem que no caso de musicar, o autor certamente tem a faculdade de desfrutar da boa e velha licença poética.

E foi isto que ele fez. Pegou um trecho de Zé Limeira e deu-lhe um sentido atemporal, coerente, embora seguindo, em certa medida, a estética Limeiriana, porém, retirando-lhe o absurdo e dando-lhe pleno sentido. Aliás, deve-se dizer que o repentista ganhou essa patente de ABSURDO tornando-se também um verdadeiro mito, graças ao genial jornalista e escritor Orlando Tejo, em seu livro: Zé Limeira, o Poeta do Absurdo.

Só para efeito de curiosidade, ele procurou a Gráfica Santa Fé, em Campina Grande – PB, de propriedade de Dr. Agnello Amorim, atualmente procurador aposentado e que goza da sociedade campinense de todo o prestígio. O lado limeiriano de Tejo impediu a primeira tentativa da editoração do livro, salvo engano no final dos anos 60.

Já morando no Recife, Orlando queria que Agnello fizesse a composição tipográfica, na época, manualmente, tal como inventada por Johannes Gutenberg, no século XV, para só depois, fazer a revisão. Evidentemente, demoraria séculos.

Deixando as digressões de lado, o adjetivo ABSURDO, dado ao excêntrico repentista, não é depreciativo para o poeta de Teixeira, município encravado no sertão paraibano. Um dos mais consistentes estudiosos do Cancioneiro Popular, Bráulio Tavares, afirma: “Limeira ficou conhecido como Poeta do Absurdo por seus versos cheios de disparates impecavelmente rimados e metrificados…”:

                                               Eu me chamo Zé Limeira

                                               De Lima Limão Limança

                                               a estrada de São Bento

                                               bezerro de vaca mansa…

                                               Valha-me Nossa Senhora

                                               tão bombardeando a França

                                               Eu já cantei no Recife

                                               perto do Pronto Socorro:

                                               ganhei duzentos mil-réis

                                               comprei duzentos cachorro;

                                               ano passado eu morri

                                               mas esse ano eu não morro.

                                               Eu só gosto dessa moça

                                               Porque tem vegetação

                                               Porteira de pau-a-pique

                                               Três pneus de caminhão

                                               peido de jumenta ruça

                                               e haja chuva no Sertão.

O autor de Paralelas transformou a parte grifada da poesia de Limeira num mote e o desenvolveu. O fez com mestria, como um leitor atencioso da realidade e das mentes e corações daqueles que foram atropelados por aquela conjuntura de perigo nas esquinas do Brasil.

Naquele período, sentir-se são, salvo e forte e, ainda, persistir na certeza de que no ano seguinte não morreria mais, tal como no ano que passou, mesmo sem ganhar na loteria, só seria possível a um Sujeito Sorte. Diria de muita sorte mesmo, pois naquela época de péssima memória, conhecida como Os Anos de Chumbo, falar equivalia a equilibrar-se sob um fio de navalha.

Enfim, o cearense, poeta universal, proveu de coerência os versos de Zé Limeira, e o fez, genialmente. Se Deus é brasileiro e anda do meu lado, é justo que eu não possa sofrer no passado. Ver-se que, sob a cortina da aparência, o aforismo é absurdo, contudo o conjunto da obra revela-se compreensível e consistente.

Semelhante procedimento, Belchior o faz em Monólogo das Riquezas do Brasil. Após discorrer sobre a aridez do dia-a-dia nas grandes cidades, após demonstrar que as riquezas do país ofendem os “homens ordinários”, no dizer de Michel de Certeau, ele enxerta o estribilho do clássico Sertão de Canindé, imortalizado por Luiz Gonzaga: “Que bom, que bom, que bom que é, a lua nova, um cristão andando a pé…”.

Outro exemplo está posto na badalada Medo de Avião. Além de reproduzir um trecho de   I want to Hold your hand, dos Beathes, ele faz menção ao espírito da canção, quando cantarola “…que eu segurei pela primeira vez em sua mão…” – clara alusão a “Eu quero segurar a sua mão”, como diz a música dos conhecidos garotos de Liverpool.

Pode-se designar essa forma de compor de intertextualidade, sem que seja necessário para fazer esta afirmação ser especializado em semiótica. Se burilar as palavras, conectando os seus significados, estabelecendo relações entre elas, for sinônimo de plágio, fez-se, então, uma infeliz interpretação.

Nisso tudo resta uma dúvida, talvez insanável. Em que momento Belchior travou contato com os versos de Zé Limeira, se antes ou depois do lançamento do livro de Tejo? A pergunta é pertinente. Muito anterior ao lançamento da obra, os improvisos de Limeira eram reproduzidos no Nordeste pelos violeiros, nem sempre com exatidão, o que é perfeitamente compreensível, dado que poucos detinham um gravador em mãos.

Particularmente, acho bem mais crível a primeira opção. Conta Belchior, a uma TV cearense, em 2007, que durante a sua primeira e segunda infância gozava as férias na casa de fazenda do seu avô – parada obrigatória de violeiros e ciganos e que também frequentava a feira mais próxima. Quem sabe se não conheceu os “… disparates impecavelmente rimados e metrificados…”, do Poeta do Absurdo, nas feiras ou na vivenda do seu avô?

A segunda hipótese é menos provável, mas não descartável. Belchior para onde ia não deixava de vasculhar livrarias e sebos. Contudo, como Sujeito de Sorte foi lançado em 1976, supõe-se que o livro de Orlando ainda não tinha ganhado grande circulação.

Independente, de qualquer coisa, reafirmo o palpite anteriormente exposto: Belchior deu tino ao ABSURDO de Limeira, o tornou atemporal, com pleno prazo de validade.

Presentemente, mesmo porque não vivemos como Alice no País das Maravilhas, continuamos a ser Sujeitos de Sorte. Morremos no ano passado, mas no próximo ano não haveremos de morrer. A esperança persistirá!

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