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Campina Grande - PB

No Tucanobanaquistão vale a lei do Torquemada – Parte III

16/07/2017 às 19:28

Fonte: Da Redação

 

Por: Gilbergues Santos

Também em março, um pequeno grupo de 20 pessoas pediu intervenção militar em Porto Alegre/RS. O protesto foi organizado pelo Movimento Pátria Amada e utilizava a palavra de ordem “Acorda Brasil”.

Os manifestantes distribuíram panfletos, onde elencavam “algumas realizações do governo militar”, com frases como “Deus salve o Brasil!”; “Deus! Pátria e família”; “Acordem irmãos e irmãs! Acorda povo”; “Intervenção Constitucional Militar Já!”. Um dos oradores fez um discurso contra os partidos comunistas e a imigração de muçulmanos. [12]

O que chama a atenção nessas manifestações não é nem tanto o que se reivindica, mas a ideia obsessiva de que só através de intervenções militares, que levam às ditaduras, é que se pode fazer reformas e combater a corrupção.

Porque não se lutar para fortalecer as instituições politicas para que essas reivindicações possam ser uma demanda democrática da sociedade? Afinal, porque parte crescente da sociedade brasileira quer tanto viver num Estado autoritário? Essa discussão nos levará, inevitavelmente, a enfrentarmos a mãe de todas as contradições que é se usar procedimentos democráticos, como liberdade de expressão, para pedir o fim da democracia como procedeu o Partido Nazista.

 A universidade norte-americana de Vanderbilt coordena, em parceria com a Universidade de Brasília e com apoio da CAPES, a Pesquisa de Opinião Pública Latino-Americana. Entre 2012 e 2014 aferiu-se o apoio das populações latino-americanas para intervenções militares em Estados democráticos.

Quase metade dos brasileiros se dizem dispostos a apoiar soluções não democráticas para “combater-se a criminalidade de colarinho branco no Poder Público”. Em 2014, 48% dos brasileiros achavam “justificável um golpe militar quando há corrupção”. [13] A cultura politica pretoriana dos brasileiros os faz desconhecer que é possível se combater a corrupção através dos procedimentos democráticos e de hábitos republicanos.

 Mas, e afinal, porque tantos brasileiros não apoiam a democracia? Dito de outra forma, porque preferem governos de forças ou ditaduras, de preferência militares? O instituto chileno Latinobarômetro atestou em 2016 que 32% dos brasileiros diziam apoiar a democracia.

Podemos dizer, por oposição, que os outros 68% apoiam um sistema politico não democrático, autoritário? Em 2015, também segundo o Latinobarômetro, eram 54% dos brasileiros afirmando preferirem a democracia. Também havia 42% dos brasileiros afirmando apoiar a “mão pesada contra as liberdades”. [14]

Estes eventos confirmam a assertiva vinda das redes sociais de que a “direita saiu do armário!”. Ela não havia desaparecido do espectro politico-ideológico apenas se resguardara (para se reorganizar) nos anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no poder com sua agenda a favor de políticas públicas de cunho social. As eleições de 2014 marcam o retorno da direita ao cenário político e permitem que atores políticos conservadores, defensores da ditadura militar, se assumam como tais.

É o caso do deputado Jair Bolsonaro, que já era conhecido, e que passou a colecionar apoios. Na República do Tucanobanaquistão há uma convergência de agendas. Os mesmo que são favor de uma ditadura militar são os que tratam um racista, homofóbico, autoritário, defensor da tortura, como um “mito” e querem elegê-lo presidente da República. Notem que, assim como na Alemanha nazista, o procedimento democrático eleição é utilizado para que se vá gradualmente se instalando uma ditadura.

Como disse, sejam de que tipo forem ditaduras não surgem da noite para o dia. Invariavelmente, antes de um sistema politico autoritário, o Estado experimenta procedimentos democráticos definidos em uma constituição.

Sociedades, como a tucanobanaquistes, fundadas em uma cultura politico pretoriana, que não experimentaram os processos revolucionários burgueses e que foram colonizadas e escravizadas por metrópoles europeias, se ressentem da experiência democrática.

Formadas pela força, não acreditam em soluções pacificas para suas crises. Como desconhecem a máxima federalista, que diz que “para males republicanos, remédios republicanos”, volta e meia buscam os autoritarismos de toda sorte para resolverem seus dilemas institucionais.

Deve ter sido por isso que o ex-chefe do Estado Maior do Ministério da Defesa, general da reserva Rômulo Bini Pereira, disse, numa entrevista ao Jornal Estado de São Paulo, que uma intervenção militar poderia sim ser a saída para a crise política que envolve os três Poderes da Republica. Em um artigo ele afirmou que: “Se o clamor popular alcançar relevância, as Forças Armadas poderão ser chamadas a intervir, inclusive em defesa do Estado e das instituições”. [15]

O mundo mudou, mas as comparações politicas são bem vindas, pois vemos em países diversos o ressurgimento das ideologias totalitárias manifestas através de partidos e lideranças ultranacionalistas, de extrema direita, com perfil dos mais conservadores e autoritários, que se utilizam de procedimentos democráticos, como eleição e liberdade de expressão, para cada vez mais ocuparem espaços e ganharem adeptos para suas causas totalitárias.

O melhor exemplo disso é a eleição de Donald Trump nos EUA. O modus operandis nazista tornou-se uma macabra referência para governantes e Estados ditatoriais no pós 2ª Guerra Mundial. Por onde quer se ache um poder anti-democrático, de inspiração autoritária, de preferência fascista, veremos práticas similares as que foram produzidas contra a liberdade de expressão na Alemanha nazista.

Já se disse que (SIC) “a primeira coisa que os ditadores fazem é reprimir a imprensa”, pelo menos aquela que cumpre o papel de informar e conscientizar a sociedade e que entende que o cidadão precisa saber da forma mais ampla possível do que acontece nos círculos internos no poder político e econômico. Só se preserva e se fortalece a democracia com uma imprensa verdadeiramente livre para ser, inclusive, adversária do governo.

Notem que não estou me referindo aquele tipo de imprensa que de tão enfronhada nas estruturas do poder político termina determinando ações para o governo. Não estou me referindo, claro, aos meios de comunicação do Tucanobanaquistão que decidem quem deve ser alvo das investidas policiais e jurídicas e quem deve ser inocentado independente de que crime tenha cometido.

Não é a esmo que este artigo está sendo publicado exatamente num momento dos mais graves, quando um ex-presidente da República acaba de ser condenado, por um juiz de primeira instância, a quase 10 anos de cadeia.

O Torquemada, digo Juiz, que proferiu a sentença se baseou em suas próprias convicções não em provas como assim se requer nos sistemas democráticos. O fato é que se não podemos, ainda, afirmar que vivemos numa ditadura, também não temos como ter certeza que vivemos numa democracia. Mas, isso é um dilema para o povo do Tucanobanaquistão.

[12] “Saudosos da Ditadura. Manifestação reúne 20 pessoas pedindo intervenção militar”. Portal Zero Hora, 13 de março de 2017. http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/politica/noticia/2017/03/manifestacao-reune-20-pessoas-pedindo-intervencao-militar-9747060.html

[13] “Apoio a golpe militar cresce no Brasil desde 2012, mostra pesquisa”. IG São Paulo, 28 de março de 2015.http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2015-03-28/apoio-a-golpe-militar-cresce-no-brasil-desde-2012-mostra-pesquisa.html

[14] No site do Instituto Latinobarômetro é possível ver todas essas informações e muitas outras acessando o relatório “O declive da democracia – Latinobarômetro 2016”. http://www.latinobarometro.org/latNewsShow.jsp

[15] “General admite intervenção militar se houver clamor das ruas: “É um caso a se pensar”. Congresso em Foco, 15 de dezembro de 2016. http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/general-admite-intervencao-militar-se-houver-%E2%80%9Cclamor-popular%E2%80%9D/

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