Fechar

Fechar

No entorno do Bodocongó

Josemir Camilo. Publicado em 1 de março de 2017.

Por Josemir Camilo (*)

Duas coisas me fazem voltar ao tema do açude centenário, pois o historiador Elpídio de Almeida escreve que a inauguração se deu em março: uma é sobre o significado do nome Bodocongó, que levou aquele historiador e ex-prefeito a gastar tinha, buscando significados; a outra é a curiosidade sobre a circunstância em que os sitiantes venderam suas terras para a construção do açude.

Tentando compreender o nome indígena, diz o autor, em nota de rodapé (p.356): “Não tem sido fácil a significação etimológica do topônimo Bodocongó. O que se sabia era que tinha origem na língua cariri. Irineu Jóffily foi claro: Bodocongó, Quixeré, Quixodi etc. são nomes cariris, segundo aprendemos da gramática do padre Mamiani. Coriolano de Medeiros, no Dicionário Corográfico do Estado da Paraíba, deu uma interpretação esdrúxula e inaceitável, “talvez corruptela de boi-to-cogoi: muita folha comestível”, o que não condiz com a fitogenia do lugar nem com os hábitos dos indígenas da região, que não se alimentavam de folhas. O padre Manuel Otaviano não avançou muito, apenas declarou que o vocábulo não era tupi-guarani, mas cariri, “cheirando também a afro-lusitano”. José Elias Borges, um estudioso da língua e costumes dos cariris, decompondo a palavra, escreveu: “BO-rio. DÓ-de água, CONGÒ-que queimam”. Mas na opinião do Dr. Th. Pompeu Sobrinho, “autoridade no idioma cariri”, como afirmou Câmara Cascudo, o vocábulo não é cariri. A realidade etimológica é outra. Disse o Diretor do Instituto de Antropologia da Universidade do Ceará, em resposta a uma pergunta nossa: “(…) devo dizer que a palavra Bodocongó não é cariri. Trata-se de expressão da língua tarairiú, falada pelos mais numerosos índios nordestinos. Infelizmente, o que se conhece deste idioma é muito pouco para permitir uma judiciosa análise etimológica do vocábulo. O mais que me é possível dizer a respeito é que o termo encerra um sentido relacionado com água”. E conclui Elpídio: não há dúvida, o nome foi dado pelos indígenas ao riacho que passa no lugar.

Está disponível online, a Arte de Grammatica da Lingua Brazilica da Nação Kiriri, do padre italiano, Luiz Vincencio Mamiani, em sua segunda edição, 1877, pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Lá, pode-se encontrar de onde José Elias Borges deduziu “rio das águas que queimam”. Nos verbetes monossilábicos (como tem sido costumeiro nas línguas indígenas), lá está que ‘bo’ é braço; ‘do’, parece vir de dzò – água; ‘co’ – queimar, comichão (coçar?) e ‘congò’ (assim, como dissílabo): queimar-se o corpo. Esta seria a versão que mais se aproxima de uma sensatez, de uma certeza. Tivessem os engenheiros, que construíram o açude, bebido, ou se banhado um pouco em suas águas, poderiam ter visto o grau de salinidade e o açude não teria significado de um ‘elefante (aquático) branco’.

Agora, a respeito das terras onde se construiu o açude, poder-se-ia pensar numa maracutaia política. Ou não? É que dos sete proprietários individuais e um coletivo (só de mulheres, as irmãs Rozalino de Araújo), uma coisa chama a atenção a respeito de, pelo menos, três deles: Franklin Clemente (ou Clementino) de Araújo, Salvino Gonçalves de Souza Figueiredo, Manoel Ildefonso de Oliveira Azevedo.

Manuel Ildefonso de Oliveira Azevedo era bacharel, filho de Ildefonso Augusto de Oliveira Azevedo, um pessoal vindo do Seridó. Seu avô era proprietário do sítio Araçá, hoje bairro das Palmeiras (segundo Elpídio escrevia, por volta de 1960). Esse bacharel era concunhado de Cristiano Lauritzen, e o defendeu no célebre processo do Rasga Vales, ocorrido em 1895; mais tarde tornou-se desembargador do Tribunal de Justiça do Estado.

Salvino Gonçalves de Souza Figueiredo (pai de Argemiro e Bento Figueiredo – este com propriedade no entorno de Bodocongó, hoje, por trás da UFCG), ao contrário, era opositor a Lauritzen, pois marchava com os liberais desde o fim do Império. As terras de Salvino ficavam onde se construiu a sangria do açude (um pouco mais, até a sementeira atual, e um pouco em direção à ex-fábrica ROVSA).

No livro História de Campina Grande, Elpídio conta que Franklin Clementino de Araújo, vereador, em 1911, aparece como um dos signatários de um pedido (estranho, digo eu) feito ao IOCS (hoje, DNOCS). É que o Conselho (hoje, Câmara) Municipal de Campina Grande, solicitava àquele órgão, nos seguinte termos: “Se ainda estiver em vigor o regulamento que exige do construtor de açudes título científico, com vistas na reforma do ensino, solicitamos dispensa deste título para o construtor do açude de Bodocongó, se por ventura o Prefeito do Município, Cel. Cristiano Lauritzen, quiser e puder entrar em acordo com essa Inspetoria. A capacidade técnica do cel. Cristiano Lauritzen está comprovado com as obras por ele e sob sua imediata fiscalização construídas no Município. A reconstrução no mesmo nível dos três paredões do grande açude desta Cidade, denominado Açude Velho, e mais três no Município; a construção do edifício onde funciona a Aula Pública, e que serve também para Teatro; a edificação do sobrado de sua propriedade, que é um primor de arquitetura; o Cemitério Municipal e muitas outras obras, atestam o gosto artístico do Prefeito e sua orientação metodológica para dirigir serviços que demandam de grande pessoal. Acreditamos que esta nossa declaração sob fé de cidadão, se não é equivalente a um título passado por qualquer congregação, é contudo suficiente para provar que sendo o Cel. Cristiano Lauritzen construtor do açude de Bodocongó, o serviço fica entregue a um homem que, além dos conhecimentos necessários, tem a vantagem de ter mais em vista a solidez da obra do que os interesses pecuniários”.

Assinaram o oficio os conselheiros Lino Gomes da Silva, Genaro Cavalcante, Franklin Clementino de Araújo, José Correia da Silva, Manuel de Sousa do Ó, João Martins Guimarães, Manuel de Almeida Luna e Francisco Silvestre Sampaio. Era secretário do Conselho, ninguém mais do que Ernani Lauritzen, filho do prefeito. Não foi atendido o Conselho. Veio um engenheiro.

(*) Professor, historiador

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube