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Negligências à toponímia

Vanderley de Brito. Publicado em 27 de fevereiro de 2019 às 9:36

Os topônimos são patrimônio, revelam história, linguística, psicossocial, tradição e muito mais. O topônimo Campina Grande, por exemplo, nasceu da espontaneidade, existe desde pelo menos o ano de 1697 e a tentativa de mudá-lo para Vila Nova da Rainha foi um fiasco, porque a tradição sempre fala mais alto, do mesmo modo que nas décadas de 1930 e 1940 tentaram mudar o nome de Queimadas para Tataguaçu, de Lagoa Seca para Ipuarana, de Barra de São Miguel para Potira, de Boqueirão para Carnoió, de Soledade para Ibiapinópolis, de Pocinhos para Joffily e muitos outros municípios que tiveram seus nomes mudados, mas a resistência da tradição não deu asas a essas violações toponímicas.

Além das localidades, recebem nomes também as referências geográficas como serras, baixadas, lajedos e cursos hídricos, que são nomeados pelo povo e sobrevivem por centenas de anos guardando antigas tradições. Estes nomes também devem ser preservados e respeitados enquanto patrimônio imaterial. Mas, infelizmente, poucos compreendem o valor dos topônimos e, muitas vezes, quando vão sinalizar estes lugares agem com negligência, de modo a comprometer a historicidade local.

Temos aqui no município de Campina Grande pelo menos dois exemplos de nomes de riachos que foram adulterados em placas e que precisam ser revistos. Um deles é o Riacho Loango (também conhecido como Amorim e Figuri), que nasce no lugar chamado Targino, passa na Fazenda Maria da Luz, dos herdeiros de Artur Freire, segue margeando a BR 230 até o lugar Loango, onde cruza a BR e segue até confluir com o riacho Surrão que vai desaguar no Rio Paraíba. Pois bem, quando este riacho cruza a estrada o Departamento de Estrada e Rodagem colocou uma placa sinalizando que se trataria do Riacho Convento, mas está errado. O Riacho Convento é outro há uns quatro quilômetros adiante, ele nasce no lugar Convento e cruza a BR 230 próximo a cidade de Riachão do Bacamarte. Portanto, a placa que sinaliza Riacho Convento deveria ser colocada no cruzamento deste riacho, próximo à cidade de Riachão e não no cruzamento do Riacho Loango.

Caso semelhante que observei recentemente ocorre na PB-138, que liga a Alça Sudoeste, em Campina Grande, ao distrito de Catolé de Boa Vista. Nesta estrada, recentemente pavimentada pelo Governo do Estado, colocaram uma placa na ponte do Riacho Logradouro que está referenciando este curso hídrico como “Riacho Pedra Fina”. Sinceramente não sei de onde tiraram este nome, pois não há nenhum riacho nas proximidades com esse nome e aquele cuja placa sinaliza, desde tempos muito antigos, é o Riacho Logradouro. Portanto urge que o DER faça a substituição desta placa também.

A maioria dos topônimos da Paraíba remonta a época da colonização. Desconheço os critérios do DER, se há consultoria de geógrafos e historiadores para a elaboração destas placas ou mesmo como aferem seus GPS, mas acredito que estes erros na sinalização de nossos topônimos não são só um desrespeito à tradição e ao patrimônio municipal de Campina Grande, mas também uma violação de tradições antigas, bem como de documentos históricos.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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