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Não a paz, mas a divisão!

Padre José Assis Pereira. Publicado em 13 de agosto de 2016 às 11:59

padre assis

* Por Padre José Assis Pereira

Talvez nunca como hoje existam tantas declarações pela paz. Com certeza, as pessoas falam mais daquilo que lhes falta. Algumas destas declarações são pura formalidade para mascarar intenções opostas à paz. Sem duvida, o fato mesmo de que a palavra paz se encontre em tantas de nossas comunicações demonstra que se trata de um dos principais valores humanos e cristão. Por outro lado, todos somos bastante realistas para saber que a paz não se alcança só com declarações. Necessita-se algum meio mais eficaz.

No Antigo Testamento a paz universal se promete como um dom principal dos tempos messiânicos. O título de Messias é “Príncipe da Paz” (Is 9,5). Os cristãos somos conscientes de que ninguém pode dar a paz ao mundo senão Cristo. São Paulo diz que “Cristo é a nossa paz” (Ef 2,14).

A paz é a mensagem comum do Evangelho: “Deixo-vos a paz a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá” (Jo 14,27). Jesus adverte que não se deve confundir “sua paz” com a paz da qual fala o mundo. Não é uma falsa paz, a qualquer preço, porque não é concordância com a injustiça e a violência, o egoísmo e a falta de amor. Para alcançar a sua paz é preciso uma guerra contra o mal, uma divisão entre a luz e as trevas. É a violência que o Reino de Deus sofre para ser alcançado.

É necessário distinguir a sua paz. Com que critério? Em primeiro lugar devemos dar-nos conta do que chamamos paz. Na linguagem comum, paz quer dizer ausência de guerra. Mas a palavra paz se usa também em sentido mais amplo. Também em tempos de paz muita gente não vive a paz. Não são só as armas que incomodam, mas também as discórdias nas famílias, nos ambientes de trabalho, entre vizinhos, na sociedade.

Podemos evitar estes conflitos? Geralmente se responde: O cristão não pode evitar as guerras no mundo, mas em seu contato com o próximo deveria viver sempre em paz. É óbvio que se trata de um ideal que raramente se alcança. Todavia existe sem duvida, um terceiro combate e uma terceira paz. Aquela que está dentro da pessoa, em seus pensamentos dos quais dificilmente se pode fugir.

Conta-se que um místico quis fugir para o deserto para não encontrar ninguém, para não ver nenhuma pessoa, para esquecer-se de tudo. No entanto, mesmo naquele ambiente tão tranquilo o santo se lamentou: “Senhor, quisera rezar, mas meus pensamentos não estão me permitindo.”

A conclusão é que não encontramos a paz no mundo, no ambiente que nos circunda, nem sequer dentro de nós. A paz plena é um dom escatológico, quer dizer se logrará com a segunda vinda de Jesus

sobre a terra. E, no entanto se necessita lutar para obtê-la e rezar para que venha a paz.

A paz é um dos bens fundamentais, porque ela sintetiza todos os bens da salvação. O Deus de Jesus é um Deus de paz e não de aflição ou de guerra. Então, como entender estas palavras de Jesus: “Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão” (Lc 12, 51).

Hoje nos perguntamos como esta radical discórdia combina com a promessa de paz. Jesus é mesmo um sinal de contradição como nos disse o velho Simeão no dia da apresentação do Menino Jesus ao Templo: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição” (Lc 2,34).

Na Bíblia há diversos gêneros literários e um deles é o uso do paradoxo, da contradição. Jesus afirma que não veio trazer a paz. Temos que nos habituar ao estilo paradoxal de Jesus, pois uma leitura superficial e precipitada destas expressões poderia levar a uma compreensão desviada de suas palavras. Certamente Jesus terá espantado ou ao menos perturbado seus ouvintes com estas palavras.

Quando Ele pede, como condição para segui-lo o negar-se a si mesmo, ou quando diz que não é digno de ser seu discípulo quem não o prefere, inclusive aos seus familiares mais queridos, está suscitando uma escolha radical. Então Ele quer nos levar a uma opção radical, opção pelo Reino de Deus.

Quando Jesus fala das divisões na família, supõe que sempre haverá alguns que se irritarão pelo simples fato de que alguém deseje viver cristãmente. Tal como aconteceu com Cristo, o cristão que é fiel ao Evangelho não pode senão tornar-se sinal de contradição, pois os seus critérios destoarão necessariamente dos do mundo. Na mesma família pode haver membros que se decidem pelo seguimento e outros não. O que acontece então? Produz-se uma seleção, uma divisão, não querida diretamente por Jesus, mas sim, o resultado da opção tomada pelo discípulo, que decide segui-lo. Quer dizer, o seguimento de Jesus provoca muitas oposições. Jesus divide a sociedade. A luta interior que exige a fé se translada para as relações humanas.

O cristão que assume com coerência o seguimento de Jesus vê surgir a divisão ou o enfrentamento entre os membros da sua própria família: “Daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai, mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra (Lc 12 52-53)”.

Pense-se, por exemplo, o que com frequência acontece quando um filho se sente chamado ao sacerdócio ou uma filha à vida religiosa, e contraria por isso as expectativas familiares. Ou simplesmente quando um membro da família, um filho, por exemplo, não se põe como primeiro objetivo de sua vida manter os negócios da família ou melhorar o status socioeconômico, porque seus interesses, sua vocação vai à outra direção. Pensemos também no que seria pretender organizar um projeto político ou a vida econômica e política da comunidade a partir dos ensinamentos evangélicos inclusive em uma sociedade que se diz cristã. Quanta oposição! Quanta crítica por ser idealista e não acomodar-se ao estilo de vida vigente!

Aceitar o Evangelho exige luta, esforço no interior de cada um. Este evangelho segue sendo vivo hoje, mas encontra não poucas dificuldades. Não é fácil conciliar a seriedade do seguimento de Jesus e a cultura da sociedade atual. Se Jesus viesse hoje ao mundo, falaria da mesma maneira, proporia as mesmas exigências, se arriscaria da mesma maneira como o fez então?

Apesar de tudo vale a pena apostar por Jesus. Conscientes de nossas debilidades, incoerências e limitações, também e, sobretudo morais. “Não vos deixeis abater pelo desânimo” disse o autor da carta aos Hebreus (cf. Hb 12,1-4). Quando sentirmos a tentação de abandonar, “tirar uma folga”, a recordação do exemplo de Cristo e da vitória final com Ele é o remédio para a nossa debilidade humana que tende a falhar mesmo nas partes fáceis. É aí que devemos ratificar o nosso caminho do seguimento tendo “os olhos fixos em Jesus”.

Viver o Evangelho ou simplesmente viver com a dignidade do ser humano exige tensão em nosso interior e em nossas relações humanas. É duro esse compromisso, mas não estamos sós se nos damos conta de que Ele “em nós começa e completa a obra da fé”. Pensai, pois em Jesus “aquele que enfrentou uma tal oposição por parte dos pecadores, para que não vos deixeis abater pelo desânimo” (Hb 12,3).

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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