Na cerimônia de inauguração do Memorial Elpídio de Almeida

Vanderley de Brito. Publicado em 25 de dezembro de 2020 às 18:00

Sem lógica aparente, em plena esquina da Rua Maciel Pinheiro com a Av. Floriano Peixoto, ponto emblemático de nossa cidade (paráfrase da esquina da Ipiranga com a Av. São João, de São Paulo), pelos entremeios da grade de ferro do Palácio da Municipalidade eu observava o movimento de gente importante e bem vestida a circular o Memorial Elpídio de Almeida em sua cerimônia de inauguração. Num palavreado confuso, dali de fora eu ouvia ressonâncias de elogios, risadas e especulações desenfreadas. Murmúrios de críticas também, mas isso não deve constituir surpresa para ninguém, sempre haverá pessoas que nada põem em prática e só querem se fazer oposicionistas, conforme a índole e vocação de cada um.

No saguão do Palácio, aquele evento solene coroava um magno projeto que fora germinado há dez anos no ideário de Ida Steinmüller e só agora se concretizava. Utopia que se fez matéria. De dois anos para cá estive à frente deste projeto, conheço o peso de cada móvel que compõe o Memorial, literalmente, e me envolvi por inteiro. Mas aquele momento que deveria ser de êxtase, pra mim era de exaustão e reflexão. Saí do evento para fumar um cigarro e ficar um pouco comigo mesmo, observando tudo de longe, mas ciente de que deveria voltar logo, eu era o anfitrião da cerimônia, tinha ainda um discurso a proferir e uma placa a descerrar.

Reportando-me dois anos em pensamento, lembrei que aquele mobiliário histórico estava sofrido, empoeirado. Há tempos, coberto de lençóis numa casa fechada, esperando um dia ser dada a serventia museológica que Ida lhe reservara. Aliás, se não fosse a determinação e zelo memorialista desta filha de austríacos estes móveis ter-se-iam se perdido ou comercializados em antiquários. Agora estavam ali, todos juntos e contextualizados no saguão de um prédio histórico, no coração da cidade, sendo reverenciado por grandes autoridades e intelectuais. Com o talento genial de Ângelo Rafael, o mobiliário, de estilo manuelino que pertenceu a Elpídio de Almeida, agora estava pulsante de energia e vitalidade. Tudo ali era um espetáculo de luz e beleza.

Teoricamente, o Memorial seria uma homenagem alusiva a Elpídio de Almeida, mas não é só isso, é também uma instalação didática que semantiza a opulência da elite campinense nos tempos áureos da comercialização algodoeira, até porque, como não é possível reconstituir o passado sem o auxílio da fantasia, algumas lacunas foram preenchidas a bem da estética para adaptar o mobiliário a conjuntura do novo espaço.

Por entre o gradeado, eu via as pessoas circulando o espaço como redemoinhos, e isso era bom, um sinal inaugural de tempos de fartura intelectual para nossa cidade, pois redemoinhos são sinais de chuva que só aparecem perto de pegar o inverno. Sorri pra mim mesmo com a ideia auspiciosa, mas logo me entristeci ao lembrar que naquele 21 de dezembro de 2020, enquanto se dava o júbilo da inauguração do Memorial, velava-se no Cariri o corpo do velho amigo Balduíno Lélis, uma das mentes mais ativas e brilhantes que já conheci. Lamentei por naquele dia agitado de preparatório para a inauguração não poder ir a Taperoá lhe dar o último adeus e nem tampouco ter tido tempo para publicar meus pesares nas redes sociais.

Ocorreu-me, porém, que na contramão da a fórmula E=mc² de Einstein, como resultado de um trabalho sóbrio e paciente, naquele dia energia estava se transformando em matéria e, assim, não faltei com meu velho amigo. Ele não estava mais aqui para ver estes rapapés de redes sociais. Em vida foi um intelectual, sonhador e realizador de sonhos, e a realização do sonho de um Memorial à intelectualidade era a melhor forma de eu honrar sua memória.

Distraído em pensamento, fui surpreendido por dois olhos azuis reluzentes do lado de dentro do gradeado, era Ida Steinmüller, a idealizadora deste sonho, que me chamava aflita para dar segmento à cerimônia. Apaguei o cigarro e fui, pois o grande José Américo já dizia que “o maior dever de um povo civilizado é incentivar sua vida intelectual”.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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