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Mulas e burros

Jurani Clementino. Publicado em 2 de setembro de 2018 às 10:25

Esses dias, jantando numa cafeteria no simpático bairro de Casa Forte, em Recife, Pernambuco, uma amiga me contou que conhecera alguém com uma história de vida muito parecida com a minha. Tratava-se de uma colega da turma de mestrado, nascida no Estado do Piauí e que acabara de concluir o doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais e já tinha sido aprovada num concurso para a Universidade Federal do Sudoeste do Pará. Fez um breve resumo de sua biografia e me mostrou, assustada, uma foto em que a tal amiga dela, de nome Lívia, montava um animal. Confessou com espanto: “Olha, foi assim que ela fez a pesquisa do doutorado dela. É assim que ela chega em casa. É um povoado bastante isolado, a cidade mais próxima fica a dezenas de quilômetros. Mas quando vi essa foto dela nesse cavalinho eu briguei tanto. Como pode, veja o tamanho dela pra esse animal. Ela vai matar o bixinho” Bom, aí eu tive que usar todo o meu conhecimento sobre animais de montaria para aliviar o susto da minha amiga diante daquela imagem.

Na verdade, não se tratava de um cavalo ou uma égua. A amiga dela montava uma bela de uma mula. Animal usado especialmente para transportar cargas. Tive que dar uma aula de conhecimentos básicos do sertão pra ela. Mas, o mais difícil foi explicar que as mulas, ou burras como chamamos lá no sertão, são estéreis. A raça não procria entre si. É um híbrido, resultado do cruzamento do cavalo com a jumenta ou de um jumento com a égua. Foi uma confusão geral porque ela não fazia ideia como se dava essa mistura. Expliquei: olha o burro ou mula, não procriam entre si. Se eles cruzarem não vai nascer nada. Se o cavalo cruzar com a égua, nasce ou um cavalo ou uma égua que novinhos chamamos de potrinho. Agora se a égua cruzar com um jumento, ou o cavalo cruzar com a jumenta nascem as mulas.

Acredito que os vizinhos de mesa nunca escutaram um papo tão bizarro entre duas pessoas de sexo oposto, em plena cafeteria da capital pernambucana. Mas eu tinha que tranquiliza-la. Eu cresci vendo o resultado desses cruzamentos. Meus avós e depois meu pai criavam esses animais. O burro mais conhecido da minha comunidade, pertencia ao meu avô paterno, seu João Leandro, e se chamava “Muderno”. Todo mundo tomava emprestado o animal pra carregar lenha, transportar cargas de legumes até a cidade, fazer longas viagens, enfim… Isso ficou nítido na minha memória. E podia tá em Londres, Paris, Nova Iorque, eu iria explicar do mesmo jeito.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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