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Campina Grande - PB

Mirrois

17/09/2016 às 10:04

Fonte: Da Redação

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* Por Ribamildo Bezerra

“O homem é um oceano; a mulher um lago. O oceano tem pérola que o embeleza; o lago tem a poesia que o deslumbra.” (Victor Hugo)

Enquanto rodava o dedo indicador no Whiskey (Bourbon feito de cereais), contava mentalmente os passos que ele dava até abrir a porta daquele hotel de segunda, próximo à Avenida Paulista. Naquele 25 de janeiro de 1984 celebraria dez anos de encontros, já sem imprevisibilidade. Era uma saudável rotina de alcova. Sempre se viam às quartas-feiras, a partir das 19h30min, como há dez anos. Ela caminhando a esmo pelo Parque Trianon, ele em busca de uma aventura.

Na noite fria de São Paulo naquele primeiro mês de 74, ela mal imaginaria que o ano que iniciara punha por fim os seus sonhos em plena noite de Réveillon. Em plena confraternização de fim de ano teria flagrado o marido, em uma loucura íntima no banheiro de sua casa, justamente com aquela que viria promovê-lo dez dias depois com uma ascensão profissional naquela grande empresa de Contabilidade. Seu príncipe encantado, que a desposou há menos de dez meses, resumia-se a um alpinista social, por meios próprios e por ética questionável. Não fez espetáculo. Calou-se. Teria sepultado aquela noite dentro de si. Dias depois encontraria cartas repletas de eufemismos eróticos dirigidas a uma certa Mister ‘G’, um codinome pobre, mas que para ela já possuía um rosto definido.

Alegando visitar a mãe que morava sozinha no morro do Mineiro, em Taboão da Serra, todas as quartas-feiras, aquela noite em especial, decidiu mudar a rota. Sentia-se bem e segura vagando entre prostitutas e garotos de programa naquele trecho da Avenida Paulista. Naquele espaço a moralidade diluída em sua desilusão, parecia renascer naquele ambiente hostil. Pensava em como ser viúva de um marido vivo. Não tinha coragem de pedir o divórcio. Seu único filho era sim seu maior patrimônio. Esperaria o Bruno completar quatro anos e ingressaria no curso de Sociologia pela PUC. Divagando e devagar se perdia nos pensamentos diante dos constantes conflitos entre patrulhas, cafetões e prostitutas, ali na área do Trianon.

Os pensamentos de pronto foram interrompidos, quando foi abordada por um homem que a seguia junto ao acostamento em um Maverick branco Super Luxo, perguntando se estava livre aquela noite. Prostituta eu, pensou. Tentou enxergar o rosto dentro do carro, e dar uma resposta à altura daquela provocação. Mas diante daquele homem calvo, de olhar profundo e voz mansa, silenciou, apenas respondendo sim ao convite. Topou aceitar a fantasia, como uma catarse libertadora a desinfetar seu rancor, apesar da consciência do risco.

Entregou-se a alguém, que mal conhecera, mas que a respeitou do começo ao fim, e em seguida antes de partir enveredou-se enquanto sorvia um copo de JACK DANIELS em assuntos sobre cultura francesa, literatura, arquitetura, cinema. Não quis saber nada sobre ela e nem ela sobre ele. Talvez por mútuo respeito à história individual de cada um.  Abaixo do abajur lilás, em cima da cômoda, uma quantia em dinheiro que fez questão de não contar, tendo jogado na bolsa. Gestos simples, porém refinados. Discrição.

Uma vez por mês, um novo encontro, no mesmo lugar, no mesmo horário. A mesma liturgia. Ausência por três meses, no ano de 1975, quando ficou viúva. O amor de verdade já tinha morrido um ano antes. Com o tempo o diálogo entre corpos foi cedendo espaço para a sintonia de almas. Admiração recíproca, com uma única fronteira. Ninguém quebraria o ritual, nem tampouco ousaria saber sobre a vida particular de cada um.

Em dez anos de história, era a primeira vez que sentia coragem para falar o que sentia. Do quanto já não precisava se esconder por trás de uma fantasia, do quanto já o conhecia. Das camisas que não se repetiam a cada encontro, do amor que tinha por Paris, e do quanto o escritor francês Victor Hugo estava presente entre eles, em frases ou citações. Era quase que um triângulo amoroso-literário.

Estava tão festiva quanto São Paulo. Uma alegria verde e amarela. O movimento pelas Diretas Já coloriam a cinza metrópole.

Estranhamente ao entrar no quarto, quase não a tocou. Alegou dor de cabeça e pediu apenas para que ela deitasse sobre seu peito. Enquanto acariciava os cabelos dela, foi falando sobre gratidão, sobre o quanto a vida lhe proporcionava momentos felizes como aquele. Citou Victor Hugo mais uma vez, do quanto a vida criativa do escritor tinha perdido a fecundidade, quando da morte da sua filha Leopoldine, em 1843, e o quanto a sua amante Juliete Drouet o trouxe de volta à vida.

Sentiu o coração dele descompassado, respiração ofegante. Parecia chorar. De súbito um pulo na cama. Falou: Tenho que ir, num voo para o Nordeste, rever parentes. Caçar.

Ela olhou bem nos seus olhos, pensou em dizer tudo que estava ensaiado. Sentiu algo estranho no ar. Calou-se. O dinheiro estava no mesmo lugar. Disse tudo em um abraço, mais forte que o habitual.

Na manhã seguinte, em meio às imagens da Praça da Sé, estampado nos jornais o Grito de Diretas Já, a socióloga, como de praxe, vasculhou aquele periódico, notícia por notícia. Consumia seu café e cada página daquele calhamaço de informações. Até se deparar com a foto dele, em um informe que lhe trouxe impacto à alma. A morte de um dos maiores psiquiatras do País. Catedrático, tendo participado da Reforma Psiquiátrica no Brasil, quando denunciou o quadro sub-humano dos manicômios no País. Vivia na França como ilustre pesquisador brasileiro até o início da década de 70. Teria voltado ao Brasil devido a uma separação mal resolvida com uma ilustre Reitora de uma das mais importantes Universidades Francesas. Teria sido encontrado morto, no banheiro do Aeroporto de Congonhas. Infarto fulminante. Estava prestes a embarcar para o Nordeste. Iria ao velório da mãe, na Paraíba.

Diante do que lia, sentiu a viuvez real. Lembrou-se do seu perfume. Das poucas vezes que ria. E do quanto ele se ausentava na alma, toda vez que ouvia Edith Piaf cantando “Ne me quitte pas’. Do quanto raramente se mostrava frágil. Diante daquela alma hermética, conseguiu enxergar seu âmago. Chorou a perda. Amava-o. Dias depois estava decidida. Viajaria ao lado do filho, para conhecer Paris. Depois de uma década finalmente daria sentido a um dinheiro que mal sabia como iria utilizar.

* Jornalista

 

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