Fechar

Fechar

Merendeiras

Jurani Clementino. Publicado em 28 de maio de 2018 às 9:56

Fui alfabetizado por minha tia que era professora e ensinava na escola Pedro Alexandre de Sousa. Era uma escolinha rural com cheiro de coco de andorinhas e repleta de pardais no telhado. As aves construíam ninhos, chocavam os ovos e criavam seus filhotes ali. Em compensação sujavam as paredes e derrubavam os bagaços dos ninhos na sala de aula. Todas as manhãs, antes das aulas começarem, as faxineiras cuidavam da limpeza. Era apenas uma sala de aula. Ali aprendemos que juntando as letras formávamos sílabas e que unindo as sílabas tínhamos palavras. Foi um período maravilhoso da minha vida. Era o descobrimento do mundo letrado. Depois disso passei a ler tudo que aparecia na minha frente. Decifrando o que tinha escrito nos cartazes das paredes, nos pequenos livros, nos jornais velhos que embrulhavam o sabão comprado na cidade.

Um dos momentos mais esperados daquelas manhãs de oitenta era a hora da merenda. Nossa merendeira tinha nome de Santa. E todo mundo chamava de tia Maria. Depois apelidaram carinhosamente de Bia Nossa. Cozinheira de mão cheia, Bia Nossa ou Tia Maria era separada e mãe de cinco filhos. Criou os meninos quase só. Disse que ainda casada morou numa barraco paupérrimo pelas bandas de Pernambuco e depois que se separou voltou pra o Ceará. Durante 24 anos, Tia Maria foi a merendeira do horário da manhã na Escola Pedro Alexandre de Sousa, até que um dia, não votou no prefeito eleito e como punição foi transferida para outra escola, em outra comunidade.

A merenda era servida por volta das nove horas. Sardinha com cuscuz, sopa de ervilha, biscoito com leite… era uma festa. Depois de alfabetizado passei a estudar no período da tarde na Escola Pedro Alves Costa, no Sitio Baixio Verde. Era uma escola maior. Tinha duas salas de aula. Reunia alunos da terceira e quarta séries do Ensino Fundamental. Lá conheci outra merendeira que, por sua vez, tinha nome de rainha francesa. Mas Antonieta era uma mulher simples, sofrida, mãe de uma família numerosa, sempre passava por muitas necessidades, mas encarava a vida com otimismo. Tempos depois ela me contou uma história que nunca esqueci. Disse-me, com os olhos lacrimejando que, por varias vezes, deu comida aos filhos e fingia que estava de barriga cheia. Os meninos perguntavam, “mãe a senhora não vai comer”, e ela respondia de barriga vazia: “Mas eu já comi! Podem comer, tá bem?”. Era tão pouca a comida que ela fingia não ter fome. Porque não queria que os filhos ficassem tristes por ela. Sei que essa é apenas uma das muitas histórias comuns naquele tempo por ali. Tia Maria também alimentou, com a merenda da escola, muitos meninos famintos que por ali passavam, propositadamente no horário em que a merenda era servida.

Bia nossa, hoje está aposentada, mas é tão conhecedora do quanto eu gostava daquelas merendas que vez por outra, quando volto ao Ceará, ela me convida pra um almoço em sua casa. Claro que atualmente são refeições bem mais requintadas e com muito mais opção do que naquele tempo de “vacas magras”. E eu, diante daquela variedade de coisas gostosas que ela põe à mesa, me alimento em silencio, como se estivesse saboreando aquele inesquecível cuscuz com sardinha, servido aos alunos da turma de alfabetização da professora Diacisa na Escola Pedro Alexandre de Sousa em meados dos anos de 1980.

Campina Grande – Domingo 20 de maio de 2018

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube