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Mensagens mecanizadas

Ailton Elisiário. Publicado em 2 de agosto de 2016 às 13:12

ailton_elisiarioPor Ailton Elisiário*

Estou bem acomodado em minha biblioteca, fazendo a minha leitura diária, quando o telefone toca. Deixo-o soar por várias vezes sem me mexer. O telefone para de tocar, mas por alguns instantes. Torna novamente a chamar e atrapalha a minha concentração. Com a minha atenção desviada, levanto-me e vou atender ao chamado.

Que ouço? A voz do outro lado da linha que diz: esta é uma mensagem; se você é o assinante da linha, clique 1; se não é o assinante e reside no endereço, clique 2; se não é o assinante e não reside no endereço, clique 3.

E aí, aborrecido, desligo o telefone. Volto desconcentrado para a minha leitura e com vontade de poder dizer umas boas a tão inusitado chamado, advindo de uma infeliz ideia de quem pensa que as pessoas não têm o que fazer. Como não consigo externar a minha reação, repudiando àquela voz irritadiça, jogo ao ar um bom palavrão para livrar-me da toxina que me invade.

Entendo que a tecnologia está a serviço do ser humano. Que as inovações tecnológicas tendem a melhorar esse serviço, nos dando comodidade e liberando tempo para sua melhor utilização. Mas, não posso concordar que elas venham fazer das pessoas figuras idiotas. Já basta o tempo e a paciência que se perdem quando se busca ser atendido via telefone, que comumente nos fazem digitar tantas vezes seguindo as instruções de uma voz gravada.

Agora querem nos passar mensagens, como se nós sejamos receptores da mesma natureza que os emissores. Ora bolas, máquina fala com máquina, gente fala com gente. Não somos robôs. Quando tivermos uma população de robôs à nossa disposição, que esses robôs falem entre si e deixem em nossos computadores as mensagens para a nossa leitura.

Ouvir uma máquina transmitir mensagens, falar como gente e ainda escolher com quem falar, é desrespeitar a própria condição humana em favor da simples emissão de ondas sonoras. Isto não é comunicação, pois não há interatividade, não há perguntas e respostas, não há discussão, não há calor humano. Só há ordens, determinações, imposições, frieza, distância.

A tecnologia que poderia permitir mais a aproximação das pessoas, mais as afastam entre si. Os telefones celulares que são as máquinas à mão para a comunicação imediata entre as pessoas, são as que menos funcionam em sua função básica. Os portadores conversam entre si pelo envio das mensagens que eles permitem realizar, ficando mudos com um aparelho na mão que os fazem falar com o mundo inteiro. Eles são mais computadores móveis que telefones.

As pessoas devem repensar a forma como hoje em dia estão se comunicando. As máquinas ou os equipamentos estão para ajudá-las, não para substituí-las nem para servirem de estafetas se os interlocutores estão tão próximos. Não se pode perder de vista que o indivíduo é ou existe apenas em função do outro. Ninguém vive sozinho, mesmo que seja eremita.

As empresas, pois, contratem pessoas para o contato telefônico com a clientela, para a publicidade e propaganda. As pessoas conversem ao telefone, não troquem o contato pelos “messengers” da vida. O falar ao vivo traduz emoções, o falar por mensagem nem sempre comunica. Convém lembrar a lição do velho Chacrinha: “quem não se comunica se trumbica”. E é que estamos vivendo a era das comunicações.

(*) Professor, membro da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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