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“Melaza”, filme cubano premiado

Josemir Camilo. Publicado em 26 de janeiro de 2018 às 7:46

Por Josemir Camilo de Melo (*)

A TV Brasil vem exibindo excelentes filmes da América Latina e países ibéricos no programa Cine-Ibermedia/2017/2018. Filmes argentino, português (e, até, de Moçambique), espanhol, peruano, nicaraguense, brasileiro, boliviano, chileno, cubano e outros, têm transformado a telinha num verdadeiro festival de cinema de arte.

“Melaza” é o título de um excelente filme cubano (2012), que passou pela censura, o que mostra uma abertura. O filme foi considerado uma obra prima do cineasta Carlos Lechuga, com apoio do Panamá e da França. O filme medeia entre drama social e comédia, tal a sua dose de ironia e de sarcasmo. Filmado no Panamá, a direção é cubana.

A história de um casal (provavelmente, tenham sido revolucionários), que tem sua vida alterada com o fechamento da usina de açúcar, que, lá, é chamada de central (engenho central). A mulher, que já tem uma filha de uns oito anos, vive com seu novo amor, numa casa pequena de dois cômodos, além de sua mãe, em cadeira de rodas. É ela a única funcionária da usina, que fiscaliza o equipamento, enviando relatórios para uma agência do governo. Ao mesmo tempo, a usina serve de encontro para o casal, que, lá, mantém um velho colchão, já que a casa é pequena demais.

Ele é professor de uma escola rural, com quase dez alunos, incluindo a própria enteada; apático quanto ao ensino e preocupado com o curto dinheiro para manter a família. Para conseguir algum dinheiro, o casal aluga seu quarto, no começo da noite (e para isto, a família sai de casa) para uma garota conhecida fazer programa. É a sutileza do diretor que faz a denúncia chocante. A mulher chega à noite e vai trocar a lâmpada vermelha, depois que a jovem e sua companhia, na porta, lhe repassaram o dinheiro. Esse é o signo, a luz vermelha, reforçado pela micro roupa da jovem. A polícia aparece e multa o casal por alugar sua residência e que na reincidência, o governo lhe tomará a casa.

Se já viviam no aperto, agora terão que arranjar como pagar a multa dentro de 30 dias. Ela vai fazer faxina, do que se aproveita e rouba um relógio. Pega, pela ‘patroa’ (que pecado socialista: patroa!) é expulsa deste trabalho. Enquanto isto, o marido busca formas alternativas para trabalhar extra, mas já existe uma pequena fila de concorrentes, quando aparece uma vaga em construção frente à sua escola. Resolve contrabandear carne verde e escapa por um triz, quando seu fornecedor (que deve ter sido dedurado) vai preso. a alternativa proposta pela mulher é a de aceitar a cantada, exatamente do mestre da obra, em que o marido queria se candidatar à vaga. O fato se consuma, o casal entra em crise, mas se supera, sem maiores detalhes. Aparecem, no final, numa demonstração ‘monstro’ do sindicato no povoado da usina, gente que cabe num ônibus, a gritar palavras de ordem e a dançar, com artistas improvisando batucada em caixas vazias e frigideira. Fecha o filme.

Não sei como Cuba não censurou. E ainda premiou, ao que parece. O filme teve boa recepção internacional sendo bastante premiado em Trinidad e Tobago, Canadá: Espanha; dois prêmios nos EUA, aplaudido como melhor filme, em festival, na Sérvia, entre outros.

Com ironia fina, mostra as mazelas sociais do regime e, de uma forma sutil, a ponto de não comprometer o regime. O que aparece como repressão é a polícia. A abertura do filme se dá com uma cena, frente à usina, mais ao fundo e, no meio da canavial, um helicóptero joga, semanalmente, um pacote de jornal comunista numa usina desativada. Posteriormente, a funcionária, ao carregar mais um fardo de jornais para dentro da usina, a câmera, discretamente, mostra outros pacotes que nunca foram abertos, distribuídos, lidos. Não há mais trabalhador algum na usina. De igual maneira, é o caminhão revolucionário, que passa toda noite (em frente à casa, depois que fora alugada para um ‘randevu’), conclamando ‘os trabalhadores da usina’ a dizerem ao ‘imperialismo ianque’ porque escolheram esta maneira de viver.

O professor, também, ensina natação. Aí, a câmera é genial: mostra o professor com apito na boca, olhando para a piscina e dando gritos, ensinando a nadar. A câmera baixa para dentro da piscina e todos os alunos estão numa pequena plataforma de madeira, acima do solo, numa piscina sem água, a dar braçadas. Mostra, como cenário do encontro do casal, jovens dançando algo ‘sexy’, parecido com funk, a dizer de sua modernidade e de suas limitações, quase que a demonstrar uma ingenuidade, como se não consumissem drogas.

O fecho do filme é a cena repetida do barulho do helicóptero e o pacote de jornais do sindicato sendo jogado no canavial, frente à usina, vazia.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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