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Campina Grande - PB

Medo da invisibilidade

10/04/2018 às 22:30

Fonte: Da Redação

(*)Pe. Luciano Guedes

Teóricos contemporâneos no campo da sociologia e da literatura ao discutirem conceitos como liquidez e anonimato na sociedade atual, lançaram olhares sobre o problema do medo da invisibilidade, tão característico do nosso tempo e cultura.  A urgência do sentimento de pertencer e de ser apreciado são naturalmente reinvidicações legítimas de nosso existir-no-mundo, na medida em que o indivíduo no seu processo de desenvolvimento psíquico-afetivo e de maturação humana necessita de estima, valor e reconhecimento dos seus semelhantes.

Contudo, ocorre que na era da web, a rápida tecnologia da informação da qual somos todos usuários, trouxe não simplesmente a conexão de pessoas e grupos, mas concomitantemente a fragilidade dos laços humanos, mediados agora pelo imediatismo de teclas e imagens. Numa sociedade de consumo como a nossa o “aparecer” e o “desaparecer” instantaneamente tornaram-se versões e fetiches de um mundo imaginário, onde as personagens são sempre felizes, bonitas, bem-sucedidas e perfeitas. Associado a esta onda, vem crescente o descarte das relações, uma vez que não será possível humanidade tão bem resolvida e sem conflitos.

Reside ao fundo do problema, o medo de não ser amado. Talvez, seja este o maior dos pavores de nossa época. Têm-se tantos contatos, curtidas e seguidores e, no entanto os corações humanos são cada vez mais sedentos de um verdadeiro encontro. Mas por que será que precisamos hoje nos tornarmos globais com nosso pequeno mundo privado? Por que não ficamos mais satisfeitos com o amor de menos pessoas? Levemos em consideração que estes medos são inconscientes, e por isso mesmo não se tornam reflexivos, mas estão imersos no abismo e mistério que cada pessoa carrega dentro de si mesma.

Ser invisível, não ser encontrado nas atualizações recentes das stories e do status corresponde para muitos a ter pouca chance no shopping sentimental e na pirâmide social. Em Deus é Jovem (Planeta, 2018), Thomas Leoncini chamou este “medo da invisibilidade” de doença social moderna, ao considerar que muitos jovens são acometidos da ausência de um significado para a vida, são vítimas da depressão e da ansiedade. A este diálogo respondeu o Papa Francisco que os jovens serão curados de suas feridas, sendo profetas, de modo específico, assumindo a missão como portadores da esperança.

Aqui consideremos algo fundamental à nossa compreensão em perspectiva cristã. Desde os primórdios o cristianismo nasceu como kerygma, palavra grega que significa anúncio, testemunho de uma novidade fundamental: o amor de Deus Crucificado deu-nos vida para sempre pela Ressurreição de seu Filho. Isto quer dizer que nós cristãos, entendemos o amor como uma “iniciativa”. Deus amou o mundo, entregou o seu Filho Unigênito, nos mandou também tomar a bacia com água na quinta-feira santa para lavarmos os pés dos irmãos!

Será que ao nosso desejo de sermos amados e admirados continuamente, corresponde à decisão pessoal de entregar nossos melhores sentimentos pelo bem dos outros? Ou será que estamos cultivando uma geração nascisística e autorreferenciada, que programa e economiza seus afetos por receio de comprometer-se, mas ao mesmo tempo exige notoriedade e vida idílica? De fato, há uma expectativa desproporcional em muitas situações, onde queremos receber o que não estamos dispostos a dar e disto resulta o presente mal-estar.

Para os discípulos de Jesus Cristo, a regra é amar primeiro, é dar-se. O amor, se é cristão, exige necessariamente um investimento, uma capacidade de arriscar e mesmo de sofrer para que o outro cresça e produza bons frutos. Como famílias cristãs, precisamos hoje ensinar as novas gerações a valorizar os vínculos, a memória afetiva dos seus antepassados, a descobrir na árvore de sua própria história as razões para serem pessoas agradecidas e reconciliadas, capazes de oferecerem aos outros o que já receberam de tantos!  Gente mais feliz e conectada de verdade, encontramos onde existe gratidão e reverência pela família, pelos amigos e por aqueles que estão dispostos a guardarem nossa presença na alegria e na dor!

(*) Pároco da Catedral Diocesana de Campina Grande e Vigário Geral

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