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“Me Respeite, ‘Paraíba’, não”

Josemir Camilo. Publicado em 28 de dezembro de 2017 às 7:10

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Bombou um vídeo, no zap, de uma poeta que concorre a um prêmio em poesia falada (digamos, um Rap sem dj). Trata-se de uma garota pernambucana, afrodescendente, que deu um show de improviso diante da plateia (no Sudeste) e ganhou a etapa brasileira

Ao mesmo tempo, circulou uma notícia de que minha cidade adotiva (a primeira que me adotou), Goiana, vai passar a fazer parte da Região Metropolitana do Recife. A 15ª cidade. Imediatamente, duas coisas me chamaram a atenção: a falta de conturbação e a perda da identidade municipal (que, no caso goianense, é muito forte – quase uma reprodução da pernambucanidade, em si) e a identidade pernambucana, tentando escapar do estereótipo construído pelo su(l)deste invadido pelos ‘nordestinos’.

A menina dá um show de improviso. Nota 10. Só não gostei, lá pras tantas, quando ela diz ‘me respeita boy’, ao ser chamada de ‘paraíba’ (assim, com minúscula). Imediatamente, começa a defender o que parecia ser a cultura do Nordeste. Mas, engano, ela descreve todos os traços de pernambucanidade, do maracatu ao Mangue Beat e todos os elementos da rica cultura de Pernambuco. Então foi que me ‘liguei’: ela não estava para corrigir a distorção do termo ‘paraíba’, como nordestino, como se fosse algo pejorativo. Aos ‘sudestinos’ (que a garota ‘empurra pela goela’ aos paulistanos, me escreveu um recifense: vocês são ‘sudestinos’, pois, diz ela, o carioca e o mineiro têm identidade própria), ela deveria contrapor com ser nordestino, dando-lhe uma positividade (já que entrou nesta guerra) , mas ela se auto elogia como pernambucana. Acho que pisou na bola; algo como: me respeita, não sou Paraíba, sou Pernambuco. Essas contradições sempre surgem, quando pensamos em sustentar uma identidade, como se fosse fixa, padronizada, sem perceber que se está dando mais munição aos discriminadores, ou discriminando vizinhos. Algo como uma divisão entre ‘nordestinos’, sendo os pernambucanos, melhores. Pois, é! Ela termina por reproduzir uma supremacia pernambucana. Pra muita gente, passa batido.

No caso de Goiana, como parte da Região Metropolitana do Recife, me pareceu, não só, inusitado, como uma possível quebra da identidade municipal. Primeiro, como diz uma deputada, que foi contra, a população da cidade não foi consultada; em seguida, ela alega que haverá prejuízo na mobilidade, prejudicando os que trabalham no RMR. Como isto não ficou esclarecido, deixo de lado. Um elemento de que desconfiei, já o tinha utilizado, quando soube que Campina Grande tinha passado a Região Metropolitana, há poucos anos. Até agora não soube de benefícios; devem estar em construção. O argumento para os dois casos é o da falta de conturbação. Sei quase de cor o trecho da BR que liga Goiana ao Recife e, com exceção da fábrica da Fiat, nada se alterou com relação aos velhos canaviais, depois da bela mata de Santa Tereza, até começar o trecho de Igarassu. Pequenas povoações perto da ‘pista’, como chamávamos, continuam sem crescimento importante, como o engenho Ubu e a vila de Atapuz, agora, importante com a praia. O cenário não se modificou, não houve crescimento urbano no entorno da ‘pista’; não houve conturbação.

Mas, volto ao papel da identidade que, como disse, é muito forte a memória histórica da cidade, porque, como cidade rica em canaviais e fronteira com a Paraíba, sempre foi palco de guerras, revoltas, revoluções e ninho de ideias rebeldes. Cito a Paraíba, devido a seu valor estratégico na fuga de rebeldes. Tanto que, a cidade detém, se não me engano, o segundo Instituto Histórico do Estado, fundado em 1870. Postos chaves da cidade irão ser ocupados por pessoas vindas de fora; a cidade corre o risco de se tornar, mais ainda, cidade dormitório, já que das fábricas do município, apenas uma fica no perímetro suburbano; as demais exigem deslocamentos dos peões e técnicos: a Hemobrás, a Fiat, a Nassau/Itapessoca. Não estou sendo pessimista; apenas, analista (creio). Uma elite pensante, forasteira, criará um imaginário desfalcado da tradição, que, por sinal, já é também desfalcada quanto ao elemento popular da cidade e nem percebe. A modernidade capitalista tem dessas contradições.

Já vinha pensando em discutir esta questão de identidade, quando, Em Campina Grande, na Câmara Municipal, cantava o hino de Campina e um diabinho, lá, por trás da orelha (dentro da mente, é melhor!) se(me) perguntava: você pode cantar “Venturosa Campina!”?. Meus filhos e filhas, campino-grandenses, cantam! Canto, por eles!

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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