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Me engana que eu gosto

Alberto Ramos. Publicado em 21 de outubro de 2018 às 17:09

Segundo o poeta T. S. Eliot, “a humanidade não suporta muita realidade”.

Os muito vivos utilizam magistralmente este mecanismo para enganar a galera, principalmente a galera do andar de baixo.

Na medicina temos como exemplo os charlatães “endocrinologistas” nutela e de clínicas ditas populares, formados em curso de finais de semana, que enganam milhões com promessas de tratamentos miraculosos para a obesidade e outras endocrinopatias.

Mas o meu assunto de enganação hoje não é a medicina, é a política.

Sempre tenho admirado (no mal sentido) como tantos pilantras têm enganado milhões. Monstros como Stalin, Hitler, Mussolini, Pol Pot e outros, enganaram milhões e causaram a morte ou o sofrimento de outros milhões para satisfazer a ânsia narcisista, diabólica ou simplesmente malvada que estava incrustada neles.

Esses tiranos, com mentiras, conseguiram enganar milhões, dizendo o que eles o que queriam ouvir.

E no Brasil? Temos algum destes?

Trazendo nossa história para os raros períodos democráticos que tivemos nestes pouco mais de 500 anos de história, lembro principalmente de 3 exemplos:

O primeiro foi Jânio Quadros. Originalmente professor, foi eleito vereador da cidade de São Paulo, prefeito e rapidamente abandonou a prefeitura pleiteando a presidência do Brasil.

Vocês podem estar com a impressão de de ja vu.

E têm razão. Os paulistas e paulistanos nunca foram muitos bons de voto. Afinal de contas elegeram Jânio, Ademar de Barros (que dizia na sua propaganda “rouba, mas faz”), Maluf (Ademar elevado a n), Celso Pitta, Doria, Tiririca, Frota, etc.

Pois bem, em 1961, Jânio Quadros, integrante de um partido nanico, mas apoiado pela UDN, se candidatou a sucessão de Juscelino Kubistchek dizendo-se o guardião da moralidade. O símbolo de sua campanha era uma vassoura que segundo ele serviria para varrer a corrupção de Brasília e do Brasil. O seu adversário era o Marechal Lott, pessoa íntegra, mas ruim de discurso. Jânio ganhou de goleada e causou o golpe de 1964 entre outras desgraças. Morreu milionário. Segundo sua filha, ao morrer tinha muitos milhões de dólares em contas no exterior. O marechal Lott morreu em 1984 com patrimônio compatível com salário.

O segundo foi Fernando Collor. A enganação começa pelo nome. Deveria ser chamado de Fernando Arnon de Mello que vez que seu pai se chamava Arnon A. F. de Mello. No entanto, ele era um assassino. Em 1963 tentando atingir um desafeto, assassinou o senador José Kairala. O avô materno, Lindolfo Collor, foi um dos mais importantes ministros de Getúlio Vargas.

Apresentado pela grande mídia como um justiceiro, o “caçador de marajás”, iria resolver todos os nossos problemas combatendo a corrupção do governo Sarney.

Convenhamos que Sarney não era nenhuma vestal. No entanto, o que a grande imprensa não viu foi que quem apontava os graves desvios do governo Sarney tinha os dedos pelo menos tão sujos quanto. Sua extraordinária performance televisiva conseguiu convencer a maioria dos brasileiros que ele era o cara que resolveria a corrupção. No entanto, a sua grande sacada foi convencer os brasileiros que Lula era mais rico que ele (a história do som 3 em 1) e que Lula, se eleito, iria tomar a poupança de todos os brasileiros.

Seria engraçado se não tivesse sido tão trágico.

E ainda hoje, esse cara engana a galera de Alagoas, mostrando que não é só o povo de São Paulo que não sabe votar.

Deu no que deu.

Agora apareceu outro salvador da pátria.

Esse cara, tem conseguido convencer a maioria dos brasileiros que “ELE É O CARA”.

Será que é?

Como dizia Jack, The Triper, vamos por partes.

Em primeiro lugar, quero dizer aos meus inúmeros leitores que não sou filiado a nenhum partido. Sei que muitos dos que me conhecem, acham que sou do PT. Não acreditem. Durante o período áureo do PT (segundo governo Lula), neste espaço) fui um dos maiores críticos a alguns aspectos da política do PT. Enquanto todos louvavam, eu era um dos poucos que criticava algumas atitudes do PT como a flexibilidade ideológica e moral que ocasionou os episódios de corrupção.

Basta ler meus artigos da época.

Dito isto vamos ao principal:

Porque votar em Bolsonaro?

Ele vai resolver o nosso maior problema que é a segurança – tenho dúvidas. O Brasil é o 108° lugar entre 163 países avaliados, ocupa uma posição nada invejável. Somos um país violento. Temos a polícia que mais mata e que mais morre no mundo. Investir em treinamento e melhorar os salários dos policiais além de insistir em respeito aos direitos humanos seria a saída.

O candidato propõe uma política de liberação de armas e de endurecimento das medidas contra os criminosos além da diminuição da idade prisional e principalmente do abandono das políticas de direitos humanos. O que me chama a atenção é que isso não tem paralelo em nenhum lugar do mundo. Em todos os países considerados seguros, essa segurança não foi conquistada com o alijamento dos direitos humanos.

É justamente o contrário como pode ser verificado em https://www.eurodicas.com.br/paises-mais-seguros-do-mundo/ . Ninguém conquistou essa invejável posição com a política de que “bandido bom é bandido morto”. Pelo contrário, eles defendem que “bandido bom é bandido regenerado”.

Ações pela saúde – o candidato defende que ““Será criada a carreira de Médico do Estado, para atender às áreas remotas e carentes do Brasil. Os agentes comunitários de saúde serão treinados para se tornarem técnicos de saúde preventiva para auxiliar o controle de doenças frequentes como diabetes, hipertensão, etc.”

Além disso defende cuidados dentários no pré-natal para evitar partos prematuros.

Tudo enganação. Ele não vai criar a carreira de médico. Se criar, eu duvido que encontre médicos brasileiros para trabalhar em locais distantes e sem condições. Os cubanos vão (iam).

Algum médico otimista deve argumentar que ele vai melhorar as condições destes lugares. Como cara pálida? Ele votou a favor do teto de gastos. Isso quer dizer que ele acredita nisso. Provavelmente não vai derrubar essa hedionda medida. Em uma entrevista foi perguntado como ele iria melhorar a saúde com esse teto de gastos. Ele respondeu que iria “tornar o sistema mais eficiente.

Até o mundo mineral sabe que a saúde do Brasil não é apenas mal gerenciada. Ela também é subfinanciada (e muito). Não tem milagre. Ou se aumenta o financiamento ou vamos continuar com a péssima saúde que temos.

E a história dos cuidados dentários? Parece que ele (ou seu assessor para assuntos de saúde) assistiu ao The Fantastic Journal of Medicine onde foi divulgada uma pesquisa mal feita que encontrou resultados que não foram confirmados por outros pesquisadores.

Segundo seus seguidores, ele é honesto.

Há controvérsias.

Ainda não foi explicado o fabuloso aumento dos bens dele e de seus filhos, quando recebem apenas (?) os salários de deputados.

A afirmação dele que usava o auxílio moradia quando tinha casa em Brasília “para comer gente” é desonesta e ultrajante. Detalhes para quem não acredita podem ser vistos em https://www.youtube.com/watch?v=HwwMlyQkw2Q

Usar fantasma para alimentar seus cães, pago pelo contribuinte também não é honesto.

Etc., etc., etc.

É impressionante como ele consegue empolgar gente empregada de carteira assinada quando o vice dele diz que tem que acabar com o 13°.

É impressionante ele dizer que é o candidato que defende a família quando  ele tem demostrado não ser tão família assim. Separou-se da primeira mulher quando esta descobriu que a sua (dele) amante estava grávida. Separou-se da segunda quando esta ficou velha para ele. Separação litigiosa e cheia de barracos. Foi acusado de roubar umas joias e de ameaçar mata-la. Depois ela se desdisse, mas as queixas foram registradas na policia civil e no consulado do Brasil na Noruega.

Enquanto isso o outro candidato é casado com a mesma mulher há mais de 20 anos e é acusado de querer destruir as famílias.

E tem uma porção de gente da galera que acredita.

E a defesa das religiões?

O candidato está sendo apoiado por todos os pastores picaretas do Brasil. Eu, agnóstico, não consigo imaginar como esses pastores conseguem explicar aos seus seguidores como adequar um discurso de tortura e de assassinato sumário com os ensinamentos de Cristo.

Tenho muitos pacientes e amigos evangélicos que votam no cara. Pessoas boas. Eu pergunto mas eles não me respondem como conseguem conciliar o “Não matarás” com o “vamos fuzilar a petralhada” (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=eBoARZDGQZs).

Mas ele é competente, defendem outros.

Em 28 anos de deputado nunca participou de nenhuma comissão (nem a de segurança pública). Teve dois projetos aprovados. Irrelevantes. Os outros que ele coloca no currículo, apenas assinou o projeto de alguém.

Só para comparar.

A deputada Manuela D’Ávila do PCDB (segundo ele, um bando de preguiçosos), com 7 anos de legislatura, apresentou ou deu parecer a 94 projetos, participou e participa de dezenas de comissões. Você pode verificar essas informações em http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_lista.asp?OrgaoOrigem=todos&Comissao=2018&Situacao=-1

Pois bem. Estamos na iminência de sermos comandados mais uma vez por uma fraude.

Mesmo assim você quer?

Eu poderia dizer tudo bem.

No entanto, quando todos descobrirem que o MITO na verdade era um MICO, todos seremos convocados para pagar a conta.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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