...

Campina Grande - PB

Marcados por Deus

04/11/2017 às 13:11

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis Pereira

De uns anos para cá é muito frequente encontrarmos com mulheres e homens que trazem uma tatuagem, uma marca, em seu corpo. Não é incomum que as exibam com orgulho. Uns se tatuam como sinal de pertença a um grupo ou comunidade particular, outros por fetichismo, há quem o faça por estética ou outros motivos.

A tatuagem sobre o corpo é tão antiga como a própria humanidade. Muitas tribos, inclusive as que desconhecem as roupas, tatuam seus corpos para não sentirem-se nuas nem desprotegidas ou para diferenciarem-se dos animais. Os cristãos “coptos” têem uma tradição de se tatuar que remete aos séculos VI e VII. Na Terra Santa e no Egito, esta prática começou a ser presente nas comunidades cristãs das igrejas etiopes, armênias, sírias e maronitas. Atualmente em algumas igrejas coptas, a tatuagem serve para identificar os cristãos e estes devem mostrá-la quando querem ingressar em algum templo.

Mas, os cristãos, estamos marcados não por uma tatuagem em nossos corpos, mas sim pela água do Batismo e marcados pela força do Espírito Santo. Se pelo Batismo fomos incorporados ao Povo de Deus, na Confirmação, fomos marcados pelo Espírito Santo, sinal de que o cristão pertence a Deus e que Deus o fortalece por meio desta marca para que ele consiga vencer o combate da vida.

Aquele que é marcado pelo Espírito Santo não precisa mais temer os perigos, os maus espíritos que o rodeiam e os bloqueios interiores que o obrigam a se apartar da vida. Somos marcados e fortalecidos pelo Espírito para sermos anunciadores, apóstolos e missionários do Evangelho da Vida.

Portanto qual é o distintivo, a marca de Deus em nós? As leituras deste Domingo de todos os santos o apontam: a inocência, a pureza de coração, a alegria, a felicidade e a certeza na esperança de um futuro onde reine a paz, a justiça e o amor.

Os cristãos não somos seres ingênuos nem angelicais, somos gente de esperança que aguardamos, preparamos e esperamos as promessas que o Senhor nos fez. Sabemos que a passagem por este mundo que passa é transitória, que os sentidos nos enganam, que estamos submetidos a múltiplas e diversas corrupções, que estamos ameaçados pelo sofrimento e a dor e que costumamos caminhar nas sombras mais do que estamos dispostos a admitir; mas além de tudo isso, a nossa fé faz que não fujamos da realidade que nos circunda, nem do tempo nem do momento presente, antes, ao contrário, estamos sempre impelidos a contemplar e transformar esta realidade a partir dos critérios do Evangelho, tendo sempre como inspiração as atitudes e sentimentos de Cristo Jesus.

Para nós este mundo é o lugar onde já começa a manifestar-se o Reino de Deus. Somos os seguidores de Jesus, os que com o testemunho de toda nossa vida somos chamados a converter-nos no sal da vida e na luz que há de iluminar o mundo novo. Para isto fomos marcados. Neste “ser sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt 5,13-16) temos um modelo, um protótipo único: Jesus Cristo. Para nós, Ele não é só uma figura excepcional, é o Filho de Deus, confessado como Senhor. Jesus é o revelador autêntico de Deus. Sem esta profunda convicção, nossa fé cristã não seria autêntica. A vida de Jesus, suas dimensões, suas atitudes, suas paixões, suas opções… não são indiferentes para nós. Como nos recorda São Paulo em vários de seus escritos, cada um tem que chegar a ser “outro Cristo”, um revelador autêntico de Deus.

O Deus crido e confessado pelos cristãos não é um ser divino metafísico, uma abstração, é um Deus que se encarnou, que assumiu a nossa condição humana, um Deus que por puro amor e misericórdia para com o gênero humano se fez um de nós, semelhante a nós em tudo menos no pecado. Ele passou por este mundo fazendo o bem, curando os enfermos, perdoando os pecadores, consolando os tristes, abatidos e aflitos, expulsando demônios, ressuscitando mortos e, sobretudo, levando aos pobres a alegria do Evangelho. A vida de Jesus não é indiferente para nós. Sua vida mesma se tem convertido em motivo de salvação.

O Evangelho das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12a) desta solenidade de todos os Santos nos revela quem são os felizes ou bem-aventurados para Deus: os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e se de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os que trabalham pela paz, os perseguidos por ser justos, os que são insultados e vilipendiados por querer viver com coerência a radicalidade e a força do Evangelho.

A lógica de Deus e do seu Reino não é a lógica dos princípios que regem o mundo onde são admirados e seguidos os que fazem sucesso, os triunfadores, os vencedores, as estrelas, os famosos, os ricos… São Paulo disse que Deus escolheu neste mundo aos que não contam, aos marginalizados, aos fracos, para confundir os sábios, poderosos e entendidos. Deus nos quer a todos por igual, mas ao mesmo tempo nos quer na diversidade e na diferença. Essa é a verdadeira alteridade.

Jesus, o Filho de Deus, não foi indiferente à dor nem ao sofrimento humano, Deus, a quem Jesus chamava de “Abba”, Pai, também tem predileções, como a têem os pais e mães solícitas por seus filhos mais desprotegidos. O cuidado de Deus alcança a todos, mas em particular aos mais pobres, para aqueles que se encontram em estado de maior vulnerabilidade, para os que, por diferentes situações, são explorados ou cuja dignidade se encontra questionada. Deus não é um ser indiferente nem passivo, é um sujeito ativo que tem seus prediletos nos que são pobres, simples e inocentes.

Jesus é para nós modelo de conduta. Nossa vida cristã tem um objetivo: ser santos; quer dizer, chegar a contemplar o rosto de Deus, vê-lo face a face. Não sabemos como será, porém nossa esperança, alimentada por nossa liturgia, é o que nos sustenta.

No Salmo 23 se expressa poeticamente o desejo de habitar no lugar sagrado: “Quem subirá até o monte do Senhor, quem ficará em sua santa habitação?” A pessoa religiosa, quer dizer, a pessoa que crê na Transcendência, que sabe que há um mundo superior e diferente a este que a rodeia, só deseja habitar no mundo onde o próprio Deus a tudo enche.

A pessoa religiosa vive neste mundo, mas sabe que não é deste mundo, que é cidadão do céu, do lugar onde só Deus habita e basta. O santo, e bem-aventurado, só vive de e para Deus, tudo o mais é secundário e relativo. O santo é aquele que está adornado dos atributos só com os quais é possível estar diante de Deus, os atributos da santidade: a inocência, a pureza de coração, a constante ação de graças, a esperança, a alegria evangélica. Santos são os que põem sua total confiança no Senhor.

Os santos nos recordam que nossos pensamentos, palavras e obras não são indiferentes na vivência da fé, que neste caminhar não estamos sós, que o caminho cristão tem sido percorrido por outras mulheres e homens apaixonados por Deus, que fazemos parte de um povo que não conhece fronteiras nem discriminações, que somos solidários com toda a humanidade e com toda criação, pois tudo saiu das mãos de Deus, que somos, acima de tudo, criação de Deus, trazemos em nós a marca de Deus, somos sua imagem.

Santo é aquele que, como Abraão, sai da terra de sua mesmice e se põe a caminho para o encontro com o outro; santo é aquele que é capaz de despojar-se da túnica do eu egoísta e se abaixa com atitude humilde para servir a Deus nas vítimas da história e dos sistemas injustos. Santos são os que estão dispostos a obedecer a Deus antes que aos homens.

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons