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Mais um ‘desvio’ do Forró

Josemir Camilo. Publicado em 13 de setembro de 2016 às 9:18

Foto: Paraibaonline

Por Josemir Camilo*

Não vou falar do ‘forró de plástico’, como andaram insinuando sobre mudanças introduzidas no gênero. Lendo o bem-humorado livro “Viva a Língua Brasileira”, de Sérgio Rodrigues, aproveito para me desfazer de algumas interpretações errôneas de etimologia de palavras portuguesas ou aportuguesadas, desse que é o sexto idioma mais falado no mundo. Porém, às páginas 318e 320, ao discutir a etimologia da palavra forró, o autor rechaça as inglesias, como eu já tinha feito também em artigo. Embora comece seu raciocínio bem montado para rechaçar a inglesia, sua conclusão deixa a desejar, se não é falsa, ou a-histórica. Ele diz: “(…) seria necessário lançar mão de algum tipo de psicanálise cultural que desse conta dessa obsessão de, contra todas as evidências, inventar uma origem anglófona para termo tão identificado com a cultura nacional”. Aí, recusa a expressão ‘for all’, para todos. Very well!

Em seguida, sem explicar o significado, diz apenas que o termo já se encontrava registrado no dicionário de Cândido de Figueiredo, de 1913 (isto para refutar o ‘for all’ que teria sido dos americanos, na base de Natal). Vai mais para trás e mostra o termo dicionarizado em 1899, em Portugal, como ‘forrobodó’ e que, em 1911, com esse nome, Chiquinha Gonzaga teria composto uma ópera. Great!

Mas ia tão bem, o rapaz! Sua última frase, para explicar a origem da palavra, se agarra à hipótese do gramático Evanildo Bechara, que alega ser a palavra ‘forrobodó’, oriunda do vocábulo galego ‘forbodó’, do francês, ‘faux bourdon’, com o significado de ‘cantochão, canto monótono’. Dançou, o rapaz! Ou seja, ele é contrário à obsessão anglófona… foi a buscar a francesa.

Bom, aí, me lembrei que já comprei essa briguinha no jornal e, aqui, vai reproduzido o artigo de 2009.

Ao contrário do que se andou propalando sobre o forró, o nome não vem de nenhuma inglesia. Arranjaram uma paternidade nobre dizendo que o termo vem do inglês. Primeiro, foi o cantor Geraldinho, ali, por volta de1983, alegando que forró vinha de uma festa que os ingleses da Great Western fariam “for all”. Depois veio um cineasta, achando que foram os americanos da Segunda Guerra Mundial, usando o mesmo raciocínio do cantor, de que os gringos faziam uma festa privada para eles (private party) e, outra, para todo mundo (for all).

Não adianta enobrecer com mentira, ou fantasia. Aliás, não tem nem porque enobrecer. O forró é do povão e sua origem já pode ser lida no Dicionário do Aurélio. Lá está que forró é o mesmo que forrobodó: arrasta-pé, farra, troça, desordem. Fora arrasta-pé, o restante dos significados é ideológico, preconceituoso; é a visão da elite sobre a cultura do povo. No dicionário etimológico de Antônio Geraldo da Cunha, o termo forrobodó está registrado com a data de 1899, a notícia mais remota que o autor encontrou, com o significado de baile popular, desordem, confusão. Novamente, o preconceito, em parte.

Por outro lado, um dos maiores cronistas campinenses, Epaminondas Câmara, escrevendo em 1938, na imprensa paraibana, depois publicado como Alicerces Campinenses, já dava forró como “reunião dançante na casa dos negros ou mestiços”. Por aí, já se vê que dançou o diretor do filme sobre os americanos em Natal.

O povo chamava seus bailes de samba, sambinha, marchinha, arrasta-pé. Como ‘historiava’ Gonzaga, em 1950: “No Rio tá tudo mudado/ nas noites de São João/ em vez de polca e rancheira/ o povo só pede/ só toca o baião…:”. E baião é ‘baiano’ (negro?). O que se deve procurar é quando se deu o primeiro registro musical com o termo forró. Nossas referências são, até então, o Forró de Mané Vito (Gonzaga), enquanto Jackson cantava Forró em Limoeiro.

Ora, a origem mais provável é a de que os bailes populares do século XIX, onde a gente negra alforriada se divertia, os forrobodós (forroboduns) eram vistos, depreciativamente, pela elite branca, como baile dos (negros) forros, com mau cheiro (bodum) de bode. Quanto ao termo forró, ainda se usava, no século XX, para animal, no caso “besta forró”, segundo os matutos, ou “forróia”, segundo Aurélio, no sentido de égua velha. É na origem negra e sofrida do povo que está nossa cultura do forró e não numa suposta inglesia, mesmo porque, como me disse um inglês, da Cultura Inglesa, eles não fariam uma festa ‘for all’ mas ‘for everybody’.

Ademais, há que contextualizar forró junto a outros elementos culturais que se tornaram regionais, como quadrilha, sanfona, arraial, fogueira e festas juninas, casamento matuto. Bem como não confundir forró com ritmo; no máximo, podia ser gênero. É baile, ‘função’.

(*) Docente, historiador

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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