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Campina Grande - PB

Maior São João do Mundo: modernidade versus memória?

24/04/2017 às 23:10

Fonte: Da Redação

Por Flávio Romero

A discussão sobre o Maior São João de Campina Grande não deve cair numa espécie de maniqueísmo insano que confronta o tradicional com o moderno, como se fossem necessariamente excludentes. Se por um lado, é importante considerar que o formato carece de atender ao mercado no sentido de inserir artistas de estilos diversos, face à necessidade de atrair o público majoritariamente jovem, nativo ou turista, por outro, também é preciso cuidar da identidade do evento. Trata-se de um evento cujo denominação evoca a memória, as tradições e as raízes nordestinas.

Não se pode pensar o evento sob a lógica do saudosismo ou do ufanismo exagerado. Nos tempos pós-contemporâneos, será que há espaço para um evento exclusivamente voltado às tradições e raízes do Nordeste?

Uma decisão política, neste sentido, poderia levar ao esvaziamento imediato do evento. Basta comparar o público que prestigia um artista do autêntico forró com o que pulula, freneticamente, diante de um artista nacional, por exemplo, do estilo sertanejo.

Também não se pode pensar o evento sob a lógica exclusiva do mercado. A valorização da memória, das tradições e das raízes do Nordeste num evento como o Maior São João do Mundo, se coloca como uma responsabilidade pública, intransferível. A cultura, como direito fundamental, deve ser implementada pelo Poder Público, visando, inclusive, a formação cidadã. Desse princípio, deriva a responsabilidade do gestor em garantir a identidade do evento pela valorização da memória e das raízes da nossa gente.

Portanto, a privatização do evento, sob o argumento da economicidade e da priorização de investimentos em outras políticas públicas prioritárias, como Saúde e Educação, parece absolutamente convincente. Neste sentido, o atual Prefeito teve coragem, assumindo o ônus político da decisão. Entretanto, se a privatização afasta o Prefeito da responsabilidade direta pela logística e pela gestão financeira do evento, não o isenta da responsabilidade de garantir que a identidade do evento seja preservada. Essa responsabilidade não se transfere à iniciativa privada.

Independente da minha forte vinculação com as raízes nordestinas, devo confessar que talvez não restasse ao Prefeito outra alternativa, sob a ótica da economicidade e da visão de mercado. Essa foi uma decisão política. Outros gestores poderiam pensar diferentemente. Neste caso, talvez optassem por não privatizar o evento. Ou, inclusive, por adotar uma posição mais rígida quanto à defesa da memória e das raízes do Nordeste. Também nestes casos, haveria o ônus político da decisão.

Entendo que uma coisa é pacífica: é preciso garantir que o evento não se descaracterize. Não se trata, tão somente, da definição da programação artística. Esse é apenas um detalhe.

Por muitos anos, o Maior São João de Campina Grande foi a única festa com realce na Paraíba. Na atualidade, diversas cidades do interior do Estado, realizam eventos congêneres, inclusive contando com a presença de artistas de renome no cenário nacional. Portanto, o Maior São João do Mundo deixou de ser atrativo único para o povo paraibano e até para os turistas.

Neste sentido, o Maior São João do Mundo não pode ser concebido como mais um evento junino da Paraíba. Por ser de Campina Grande e em respeito à própria história, o evento deve ser único e inimitável. Essa característica só se consegue pela valorização da identidade, da memória e das raízes do Nordeste, que dão sentido à festa.

Pensar o evento buscando estabelecer a necessária interface entre o tradicional e o moderno, como forma de garantir a identidade da festa, vinculada à memória e às raízes do povo nordestino, é um desafio que requer competência técnica e firme  decisão política.

Não se trata, apenas, de montar uma programação para os trinta dias da festa. Outros elementos podem ser pensados como forma de garantir que a identidade do evento seja preservada e fortalecida, como marca única e inalienável do Maior São João do Mundo, realizado em Campina Grande.

Para tanto, não faltam talentos que possam conceber essa necessária interface. O Parque do Povo, apesar de ser plural e multifacetado, deve realçar a identidade, a memória e as raízes da nossa gente, razão de existir das próprias festas juninas e marca diferenciadora do evento realizado na Rainha da Borborema.

É certo que muitos turistas cortam as estradas do país para prestigiarem em nossa cidade, os seus ídolos de projeção nacional, por vezes de sucesso meteórico. Tantas estrelas cintilam no cenário nacional (e até internacional) somente ao tempo em que são notabilizados pela ocupação de espaços privilegiados da mídia que, infelizmente, também se rende a cultura do descartável.

Mas, também é certo que muitos desses turistas visitam Campina Grande e prestigiam o Parque do Povo com o objetivo de mergulhar no universo identitário que caracteriza uma festa junina. Buscam se envolver com a memória e as raízes da nossa gente.

Infelizmente, ao longo dos anos, o Parque do Povo tem perdido em significados e significantes dessa memória Nordestina.

Excetuando alguns poucos espaços, a cenografia e a decoração, notadamente das barracas, pouco ou quase nada tem de elementos que caracterizem à memória das festas juninas, realizadas no Nordeste.

Basta que o leitor faça uma busca nas suas memórias recentes:

Como estão decoradas as barracas?

Como se vestem os colaboradores que atendem os clientes?

Qual o cardápio oferecido aos nativos e turistas?

Apenas como exemplo, lembro de uma visita que fiz ao Parque do Povo. Uma barraca me chamou especial atenção pela ambientação predominante vermelha e preta, com detalhes em dourado e, inclusive, com lustres de cristais. Naquele momento, pensei que estava tendo um Déjà Vu, revisitando o Moulin Rouge de Paris.

É fato que o Maior São João do Mundo carece de revitalização. Também é fato que esse processo de descaracterização não é recente. Ocorreu, lenta e progressivamente.

Apelo ao gestor municipal e a sua equipe – não permitam que o Maior São João do Mundo sucumba, ante a premente necessidade de se moldar à lógica do mercado.

Se o Parque é do Povo, deve acolher as massas com uma programação sintonizada com o gosto predominante. Essa é a lógica imposta pelo mercado que não pode ser olvidada. Mas, a valorização da identidade, da memória e das raízes do Maior São João do Mundo devem ser preservadas e fortalecidas, inclusive como instrumentos de formação cidadã.

É pedagógico que o Parque do Povo siga valorizando e fortalecendo a memória, a identidade e as raízes nordestinas como expressões da nossa gente e que dão sentido histórico e cultural ao evento. É pedagógico que o jovem estudante adolescente que entra em êxtase dançando ao som do “safadão”, também tenha a oportunidade de ter contato com artistas que representam a memória autêntica do Nordeste.

Essa é a função que considero pedagógica no evento: oportunizar ao jovem o contato com a memória identitária da nossa gente. Ou seja, suprir a ausência pedagógica da família e até da escola, nesse sentido. Não consigo conceber cultura dissociada da educação.

Seguirei olhando para o céu, e não vendo balões. Seguirei olhando para o chão, não vendo fogueiras. Ainda assim, saberei guardar num recanto escondido das minhas memórias os tempos da meninice, das quadrilhas tradicionais e dos jogos em torno do incandescente fogo, sob o balanço melodioso do forró autêntico.

Me curvo à realidade dos novos tempos, que muda independente da minha vontade. Assim, saberei olhar para o Parque do Povo, ressignificado, acolhendo padres, sertanejos e “safadões”. Mas, minha alma de raiz caririzeira, ficaria imensamente feliz em enxergar esse mesmo Parque – que é do Povo – divulgando para o mundo inteiro a identidade mais marcante do evento – a memória e as raízes do Nordeste.

“Olha para o céu meu amor […]”

 

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