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Mabel Amorim: Manhã de Natal

Mabel Amorim. Publicado em 24 de dezembro de 2019 às 13:24

Manhã de Natal, o céu está um pouco nublado, o ar um tanto abafado. Animada, me dei de presente um café numa conhecida e aconchegante livraria da cidade. Cheguei muito cedo, havia pouco movimento, cumprimentei com alegria o proprietário e os funcionários, de tanto frequentar o lugar já os conheço bem, e segui para o Café. Quem me conhece sabe que é quase um ritual para mim o saborear dessa bebida. Sentei à mesa preferida e fiz o pedido. Tomei-o sem açúcar, devagar. Interessante isso. Percebo que, apesar de continuar gostando muito de doces, passei a apreciar o sabor amargo com um prazer crescente. Café puro, água tônica e chocolate 70% cacau agora me dão água na boca quando, há alguns meses, me faziam torcer o nariz.

Mas voltemos ao café! Devidamente apreciado até a última gota, me envolvi com o celular, respondendo às inúmeras mensagens de boas festas que pareciam procriar pois, nem bem eu respondia uma, mais três surgiam na tela, sonoras e expectantes, no aguardo da minha atenção. Mensagens muitas vezes copiadas e coladas, pululantes, efusivas, deixando um amontoado de figuras coloridas na telinha do celular, quase um desafio acompanhar o ritmo.

Ainda distraída, depois de vários minutos com a vista presa à tela, levantei a cabeça para os olhos descansarem um pouco e, para minha surpresa, na mesa a minha frente estava sentado um homem com barba grande e branca e cabelos igualmente brancos e longos. Apesar de não estar vestido de vermelho, imediatamente remeti meu pensamento ao bom velhinho que povoa o imaginário das crianças e dos que ainda se permitem encantar. Não pude deixar de sorrir.

Pensei no quanto associamos essa imagem a presentes, a desejos, a pedidos. Lembrei de minhas expectativas quando era criança, da alegria que se estampa nos olhos da minha filha menor quando o vê, do ritual do presente, das cores, das músicas.

A frase dita tantas vezes por ele nas nossas muitas visitas ao seu reino, não no Polo Norte nem na Lapônia, mas no shopping center mais perto: “- O que você quer ganhar nesse Natal?”

Fechei os olhos e pensei em como estou agora, em tudo que vivi até hoje, tudo pelo que sorri e chorei, que me forjou, que lapidou meu espírito, que me motiva ao acordar, que me faz renascer todo dia. Pensei no quanto o amargo dos dissabores apuraram meu paladar para a doçura das gentilezas. Pensei em quantos aprendizados pude enxergar quando as lágrimas das dores lavaram meus olhos. Pensei em quanta felicidade existe em simplesmente poder abraçar e ser abraçada por alguém que me ama como sou. Pensei na riqueza de estar bem, de verdade, e me fiz a mesma pergunta: “- O que você quer ganhar nesse Natal?”

Abri os olhos e ele não estava mais lá.

Sorri. Na minha mente, uma luz brilhava: eu já sabia a resposta!

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Mabel Amorim - Advogada - Coach - Palestrante - Escritora

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