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Louceiras

Jurani Clementino. Publicado em 7 de dezembro de 2018 às 9:44

“Miolo de pote” é uma expressão geralmente usada para se referir a alguém que está conversando bobagem. Que está falando coisas sem sentido. Quando essa pessoa insiste em discutir temas vazios. Porque, na verdade, o que existe no miolo de um pote, é um imenso vácuo e, quem geralmente preenche esse vazio, é a agua. E hoje vou falar sobre a água de pote que é, pra gente da zona rural, a nossa primeira experiência tecnológica bem sucedida no processo de resfriamento deste líquido para o consumo. Ou vocês nunca provaram água praticamente gelada de um pote de barro? A verdade é que bem antes da chegada da geladeira a gente tinha as nossas estratégias para conservação dos alimentos e das bebidas contra a ação do tempo. Tratava-se do que hoje muita gente chama de tecnologias sociais.

 Por exemplo, o milho colhido após o inverno era colocado, ainda nas espigas, dentro de casa, o produto vinha com a palha para evitar a ação dos gorgulhos, uma espécie de besouro pequeno que trabalhava dia e noite furando os grãos e transformando a massa em pó. Já as carnes compradas nos mercados ou aos marchantes das zonas rurais eram dependuradas num arame, bem acima do fogão a lenha, porque ali a fumaça e o calor provocados pelo fogo, protegiam o produto das moscas e conservava por algum tempo. Mas e a água, como matar a sede com água fria em tempos quentes sem a famosa geladeira? Ah, pra isso usávamos os tradicionais potes de barro fabricados pelas louceiras das comunidades rurais. Podíamos comprar ou encomendar esses utensílios domésticos a dona Antônia de seu Zé Bento, ali na feira das panelas próximo ao calçadão no centro de Várzea Alegre. No Sítio Queixada os potes eram fabricados por Dona Dasdores que vivia fazendo buraco nas roças pra tirar o barro e usar na fabricação das peças artesanais. Ela fazia panelas, pratos, cuscuzeiras, cacos para assar os beijús e, claro, os famosos potes.

Trabalhar o barro e transformar em peças de uso doméstico era um processo demorado. Dasdores coletava a argila, colocava de molho e depois amassava com cuidado até ficar no ponto. Não é todo terreno que produz barro de louça. Ele precisa ser resistente e ter uma espécie de amálgama quando molhado. Depois de confeccionados, os produtos eram colocados para secar ao sol e, em seguida, levados ao forno. Lá, a base de muita lenha, as peças de barro eram aquecidas até ficarem vermelhas em brasa. Depois desse processo esses objetos já podiam ser comercializados. Quando uma família adquiria um, dois ou até seis potes para armazenar água em casa, eles eram colocados numa base, pouco acima do chão, geralmente feita com tijolos. Para ajudar no esfriamento da água as pessoas colocavam areia e mantinham sempre molhadas. Toda casa sertaneja tinha um par de potes bem na sala da frente. Usava-se sempre dois  porque enquanto consumia a agua de um, o outro ficava refrigerando o liquido para ser usado em seguida. Recomendava-se que a água ficasse, pelo menos, vinte e quatro horas ali armazenadas até o consumo. Depois desse tempo, a gente dizia que a água estava dormida e, portando, pronta pra o consumo. Então fazíamos revezamento enchiam um enquanto secavam o outro.

Essa foi a geladeira de muita gente por muitos anos. Tinha potes de todo tamanho e de todos os formatos. Algumas mulheres usavam copos de alumínio para o consumo das águas que pareciam um negócio milagroso. A água ficava mil vezes mais gostosa e, quando o copo era limpo, dava um gosto danado beber aquilo. Com a chegada da energia elétrica e a popularização dos eletrodomésticos como geladeira e fogão a gás, Dasdores encerrou a carreira de louceira e virou sacoleira. Vez por outra,  encontro com ela de posse de uma sacola de roupas na cabeça, subindo e descendo pelas estradas, fumando um “delicioso” cachimbo, acompanhada de uma bengala e um cachorro vira-lata.

Jurani Clementino

Campina Grande – sexta-feira 30 de novembro de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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