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“Livraria Cultura do Paço Alfândega fecha suas portas”

Josemir Camilo. Publicado em 10 de julho de 2018 às 8:38

Notícia veiculada em jconline.ne10.uol.com.br dava conta de que a mais importante livraria instalada na capital pernambucana, naquele shopping, encerraria suas atividades. Lamentável, é uma grande perda. Mas, alguém retrucaria: não há outra filial a uns 20 minutos do Alfândega, noutro shopping, o RioMar?! Eu sempre me questionei, como era que uma empresa paulista, colocava duas lojas tão próximas uma da outra. Talvez esteja, aí, um dos motivos de sua queda de vendas. Mas, explicações posteriores dão conta de que os proprietários do imóvel pediram a desocupação para vender. Quem perde é o Paço Alfândega, porque sem o charme daquela livraria, ele ficou reduzido a apenas um shopping meio de luxo. Trivial, praticamente, numa metrópole regional, que já dispõe de uma meia dúzia destes “Temp(l)o é dinheiro”.

Imediatamente, nas redes, explodiu uma discussão: no Brasil, cada vez se lê menos. Alguns já começam a olhar para velhas casas de livros com um ar nostálgico, perguntando-se, até, quando resistirá. Haverá uma livraria-museu? Olhe meu neto, isto aqui era uma livraria, funcionava assim, assado, este era o livreiro, o dono da loja, apelido também que caía na carapuça de trabalhadores que se matavam por seus salários e que terminaram por dominar o conhecimento de livros etc., embora morressem pobres (dos colegas que tive). E, aí, eu incluiria minha pequena experiência como ‘livreiro’ na maior Livraria do Brasil, nos anos 70/80, a Livro 7, do Recife. Apenas alguns meses. Os livros me fascinam desde quando fui desasnado, não na escola primária, mas no Seminário dos Carmelitas, em Goiana e em Camocim de São Félix. Foi lá, que me defrontei com uma biblioteca. Sem esta experiência, talvez eu estivesse, em minha cidade, atendendo num balcão de loja de ferragens ou sendo mecânico, em uma das duas usinas de cana de açúcar, de lá, à época. Chega de viagem.

Balançando na rede, ou seja, indo do face ao zap e a e-mails, a grande questão se tornou: o brasileiro está lendo menos? Ou: de quem é a culpa? A TV e o celular se tornaram os primeiros culpados. Até computadores, tablets e e-books foram sovados. O primeiro, quase por justa causa, devido à contaminação de faustites e silviosantities agudas, acompanhadas de recaídas novelescas e futebolescas. Outro vilão, e contra este todos concordam, é o preço do livro. Dedução: o livro está morrendo. Mas, o que muita gente não percebe é que ainda estamos presos de um imaginário livresco, em que toda informação, toda cultura nos vinham pelos livros. Parece que estamos no Iluminismo das enciclopédias e dicionários, até o nascimento do romance moderno, balzaquiano et caterva. Mesmo naqueles tempos, a cultura não vinha só dos livros, estava na música, na ópera, na composição sacra, na pintura e nos impressos, muitas vezes adversos aos livros, os jornais. de Hoje esse diapasão eletrônico já havia, sob outras plataformas. Outro elemento que se incorporava, à época, eram as viagens. Nascia o Turismo. A terra se encurtava pelo trem e pelos vapores e navios de ferro. O velho livro se reciclava, tornava-se mais acessível. Fênix de mais uma morte anunciada?

Mas, a grande discussão que se pode fazer é: o que é ler? Estamos presos ao imaginário dos três ‘eles’: ler, livro, leitura. O endeusamento do livro vem do mito religioso, básico, de que só há salvação pela leitura, e de um só livro. Com a invenção da imprensa, livro, que era só de manuscritos, e suas cópias, passaram a ser objeto de cobiça dos ricos, embora nem tantos lessem. Nascia a biblioteca pré-moderna, o recinto tão decantado por Jorge Luís Borges, equivalente ao paraíso, embora babeliano: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria” (visto numa parede da Livraria Nobel-Campina Grande). Há uma versão que não cita ‘livraria’ e, sim, bibliotecas. Fico com a segunda. Com o (re)nascimento da disciplina e área de conhecimento, História, a crença no livro se expandiu para o documento, que virou fonte de verdade, retornando ao mito da Bíblia, enriquecendo a fonte livro.

Hoje, livro deixou de ser o único objeto icônico do conhecimento, do prazer, da devoção e de comunicação, sobretudo, o mundo info-holográfico já está aí, além de ‘leituras’ culturais. Tudo se tornou objeto de leitura, uma paisagem, um corpo, uma fala, gestos, danças. O que é ‘tatoo’, senão um corpo aberto à leitura? Analfabeto não deveria ser só o que não lê livros, mas aquele que não conseguiria ler a realidade à sua frente e, aí, cairíamos na idiotice.

Portanto, embora seja importante consultar as estatísticas, que povo lê mais, onde mais se edita, qual o livro mais vendido no mundo. Podem ser ladainhas (mantras) da mesma religião. Por acaso, o alto índice de alfabetização da Europa, na primeira metade do século XX (em comparação com a ‘selvageria’ e a ‘barbárie’ dos sul-americanos, por exemplo), livrou os europeus de hecatombes monstruosas, como as duas guerras e o genocídio impetrado pelo nazismo? Ou, mais recentemente, anos 90, a limpeza étnica dos sérvios sobre os bósnios?

Quando recorro a uma criança para me ajudar no celular ou até no computador, ele lê muito mais do que eu e me ensina. Fico imaginando viagens interplanetárias, se os cientistas tivessem de carregar centenas de livros para decifrar as coordenadas do cosmo. Pode parecer que sou avesso a livros. Apenas tento distinguir o imaginário do real. Adoro mergulhar no imaginário dos livros, que vai da leitura, em si, à capa bem produzida, à ‘mancha’ gráfica, ao cheiro e ao tipo de fonte. Adoro livrarias e bibliotecas, estes templos modernos e sou semianalfabeto diante dos novos ícones eletrônicos. Ainda há tempo para aprender?

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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