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Lica: “A Mulher da Casa Abandonada”

Jurani Clementino. Publicado em 28 de julho de 2022 às 11:48

Ao ouvir atentamente os sete episódios do podcast “A Mulher da Casa Abandonada” um interessante trabalho jornalístico da Folha de São Paulo que está dando o que falar e que investiga a história de vida de uma figura misteriosa – uma mulher que mora há décadas em uma mansão caindo os pedações num dos bairros mais rico de São Paulo, Higienópolis -, eu me lembrei de que também já morei por alguns anos ao lado de uma casa abandonada e dentro dela existia uma figura igualmente enigmática. Claro que não era numa luxuosa mansão, era uma casa simples. Claro que não era num bairro nobre de São Paulo, era na região central de Várzea Alegre. Claro que não era com uma mulher acusada de crimes pelo FBI, mas era uma senhora sobre a qual pairavam tantos mistérios… era a casa de uma idosa muito solitária que atendia pelo nome de Lica.

O podcast da Folha sobre “A Mulher da Casa Abandonada” é resultado de uma apuração jornalística que durou seis meses e tem o repórter Chico Felitti como principal envolvido na investigação. A mulher que se apresenta a toda vizinhança como Mary, um nome inventado, tem sempre uma camada de pomada branca no rosto e esconde há décadas a acusação de ter cometido nos Estados Unidos, vinte anos atrás, um crime hediondo: manter em cárcere privado e sob regime de trabalho análogo a escravidão, uma empregada brasileira, negra e analfabeta. Essa pessoa que escapou do FBI e foi procurada pela justiça americana chama-se Margarida Bonetti. Ela tem sua história contada pela primeira vez no podcast do Chico Felitti.

A casa abandonada que vou retratar aqui é outra, mas também era bem localizada. Ficava no começo da rua Zé Felipe, no centro de Várzea Alegre. Estava próxima aos serviços da justiça oferecidos pelo Fórum local, dos serviços bancários com as agências do Banco do Brasil, do BEC e dos serviços dos Correios que ficavam no mesmo quarteirão. Não era muito distante da Igreja Matriz, nem do Mercado Público, nem do Clube Recreativo – CREVA e estava a poucos metros do Hospital São Raimundo Nonato. Para Várzea Alegre era como se fosse o bairro de Higienópolis. Uma região bastante valorizada da cidade. Por mais que morasse ali, ao lado. A gente não sabia muita coisa sobre aquela solitária moradora. Nem seu nome completo. Era apenas Lica. Mas todos ali ficavam incomodados com o estado em que a residência e sua ocupante estavam. Igualzinho aos moradores do bairro Higienópolis em São Paulo. A casa tinha sujeira pra todo lado. As portas eram velhas, mal cuidadas, o telhado caindo, e as paredes sujas e cheias de mofo.

Eu tento aproximar essas duas histórias, mas sei que elas são diferentes e distantes tanto no tempo, quanto no espaço. Margarida Bonetti era filha de uma tradicional família paulistana, foi casada com um engenheiro bem sucedido e morou nos Estados Unidos, quando levou a empregada em 1979. Talvez Lica nunca tivesse casado com um rico engenheiro. O que se comentava era que ela teve, de fato, um marido. Mas ele teria sido assassinado durante uma confusão envolvendo traições amorosas. Desde então, Lica trancou as portas do seu coração para o amor e guardou a chave do cadeado escondida em algum lugar daquela casa abandonada, junto às roupas ainda ensanguentadas do marido morto. Não se comentava que Lica fosse de uma família tradicional de Várzea Alegre, mas diziam que ela possuía casas e terrenos em outros bairros da cidade. O fato é que Lica, ao contrário de Margarida, nunca morou nos Estados Unidos, nem manteve por décadas uma empregada sob o regime de trabalho análogo à escravidão, nem agredia essa empregada com socos, chutes e puxões de cabelo como retrata Chico Felitti no podcast da Folha.

Mas o que todo mundo comentava era que ela tinha uma vida razoavelmente confortável antes de se isolar naquela pequena residência. Que ela possuía muitos parentes…. mas eles nunca apareciam. Quer dizer, tinha uma única mulher, que se dizia da família e que, vez por outra, vinha lá, tirava um pouco da sujeira da casa e trazia comida para Lica. A pergunta que fazíamos era: onde estão os outros familiares? Se ela tinha irmãos por que eles não aparecem? Pra onde teriam ido e por que teriam abandonado aquela mulher a própria sorte. Lica também gostava de animais domésticos como a Margarida Bonetti. Recordo que ela tinha uns gatos dentro de casa. Mas a casa abandonada de Lica, embora ela estivesse ali dentro, também exalava um mal cheiro dia e noite. A mulher se vestia com trapos e estava constantemente suja como a própria casa.

Eu morava na residência ao lado. Uma casinha tímida na rua Zé Felipe número 65 Mas sabia pouco sobre ela. Eu e praticamente todos ali na rua. Mesmo assim, apenas uma parede nos separava. Se não estou enganado, casa de Lica não tinha energia elétrica e nem gás de cozinha. Ela cozinhava usando pedaços de madeira que encontrava pelas ruas para alimentar um improvisado fogão a lenha que mantinha no ultimo cômodo da casa. Digo isso porque entrei no interior da casa algumas vezes a pedido dela. Sempre para fazer um favor. Mas quase ninguém entrava ali. A casa vivia constantemente com as portas fechadas. As portas não, porque ao contrário da mansão de Higienópolis que tem dezenas de portas e janelas, a modesta casa de Lica só tinha uma única entrada de acesso na parte da frente. E uma janela. Mas ela nunca abria nenhuma delas. Ou somente abria a porta quando precisava sair.

Quando não estava presa em seu próprio cárcere, Lica encontrava-se andando pelas ruas, pedindo esmolas. Muitas histórias rondavam aquela mulher e seu isolamento. De que não teria sido uma boa pessoa. Que a família teria abandonado-a porque ninguém suportava suas maldades. Mas ninguém era claro em afirmar quais eram essas maldades. Ninguém sabia dizer, ao certo, se existia algum tipo de crime cometido pela idosa. Eu duvido muito. Afinal sobre aquela casa pairavam todos os mistérios que rondam as casas abandonadas e suas moradoras mulheres.

Essas memórias tem mais de duas décadas. São dos distantes anos de 1997/1998, quando vivi na casa de minha tia Edite, vizinha de Lica, ali na rua Zé Felipe, para concluir os últimos anos do Ensino Fundamental em Várzea Alegre. Foi exatamente nesse período que a Margarida Bonetti fugiu dos EUA e se escondeu na mansão de Higienóplis em São Paulo. Pouco mais de vinte anos depois a história veio a tona por causa do podcast da Folha e eu me lembrei de Lica. Tem esse tempo todo que não sei por onde ela anda. As últimas vezes que a vi era de uma tristeza só: ela não conseguia mais andar e por isso estava rastejando, serpenteando pelas ruas do centro de Várzea Alegre. Arrastava-se pelo chão com a ajuda de um pedaço de madeira. Hoje aquela casa abandonada já não existe mais. Foi destruída e a nova construção deu espaço a um ponto comercial e a uma residência. Soube também que Lica teria sido levada para uma casa de idosos na região do Cariri onde veio a falecer no ano de 2020.

Jurani Clementino

Campina Grande, 24 de julho de 2022

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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