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Legítima defesa

Jurani Clementino. Publicado em 30 de outubro de 2017 às 10:48

Por Jurani Clementino (*)

Viver é um risco necessário; matar, vez por outra, também. A gente mata o outro pra sobreviver. Matamos por convicção ou por omissão. Quase sempre é um processo doloroso, contudo necessário. Precisamos de um grito de liberdade, por isso matamos. Promovemos a guerra em nome de um punhado de paz. É um pecado travestido de um belo ato virtuoso. E depois do crime, como todo criminoso profissional, a gente grita vitória. A gente se sente estranhamente feliz. Vive-se o luto com um prazer incondicional. Afinal trata-se de uma questão de vida ou morte. Ou matamos ou morremos.

Para cometer o crime, sem remorso, nos apegamos a tudo aquilo que podia ter sido e não foi. Recorremos às memórias. As piores lembranças. A tudo aquilo que, aparentemente, pareceu lindo, sem, necessariamente, ter sido. Aquele abraço verdadeiro/fingido. Aquele beijo dado/implorado. Aquela despedida/fugida. Aquelas conversas em vão. Aquelas noites em claro. Aqueles dias que só farão o real sentido quando o crime estiver em plena execução. Quando você tiver a capacidade de perceber que está nu. E tomar novamente para si aquele olhar de criança. E perceber que você é o próprio rei. Que suas vergonhas estão à mostra. Que uma multidão te olha. Daí você percebe que algo precisa mudar.

Só depois de tudo isso a gente começa a planejar o crime. Inicialmente se sente um criminoso cruel. Que não será capaz. Tenta, em vão, afogá-lo num copo de cerveja consumida num bar de esquina. Ou transformá-lo em fumaça junto à meia dúzia de cigarros baratos. Com o tempo, executa-o a sangue frio. Mata sentindo o gosto do sangue quente na boca. Mata em defesa própria. É um crime em legítima defesa. Um crime necessário. Sua capacidade de se enxergar de fora, de se ver de longe, de auto avaliação, dirá “aperte o gatilho”. É uma ordem. Será um novo recomeço. Livre. Sem prisão. Sem ilusões. Até que novas fantasias surjam. Até que a necessidade de matar novamente apareça. É a vida. É a morte. É a morte restituindo a vida ao vivente. Dando-nos a oportunidade de viver. Viver é adoravelmente maravilhoso. Viva!! Mate!! Morra!!

Campina Grande – outubro de 2017

(*) Jornalista, escritor, professor

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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