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Jurani Clementino: Zaqueu Guedes – a redemocratização e as eleições de 1988

Jurani Clementino. Publicado em 24 de julho de 2020 às 11:35

Paraíba Online • Jurani Clementino: Zaqueu Guedes - a redemocratização e as eleições de 1988

Zaqueu Gonçalves de Oliveira, mais conhecido como Zaqueu Guedes, é um senhor de 93 anos de idade, que morou, durante muito tempo, no sítio Timbaúba, zona rural de Várzea Alegre. Por conta de suas histórias tornou-se uma espécie de figura folclórica em todo o município. Desses homens dispostos e empreendedores já deve ter se envolvido com quase tudo nessa vida: agricultura, comércio e, claro, política. Suas anedotas vividas e ouvidas durante a campanha eleitoral do final dos anos de 1980, são, até hoje, narradas por quase todo varzealegrense. São histórias engraçadas, de cunho jocoso e, quase sempre, com duplo sentido. Reuni, para este texto, alguma dessas situações.

A Serra dos Cavalos sempre foi uma localidade rural do município marcada pela dificuldade de acesso. Até hoje, a péssima qualidade de suas estradas, entra nas pautas dos mais diversos candidatos a cargos públicos. Com Zaqueu não foi diferente. Naquela campanha para vereador, no ano de 1988, ele foi de moto a um comício na referida localidade. Quase não chega ao destino e para conseguir concluir o percurso deixou o transporte de lado e seguiu a pé. Na hora de seu discurso, o aspirante a uma cadeira no legislativo, não se esqueceu de mencionar o problema enfrentado para chegar até ali. E fez a seguinte promessa:

– Meus amigos, da Serra dos Cavalos, garanto a todos vocês que vou fazer novas estradas e entupir o buraco das velhas.

Dona Raimunda, esposa de Zaqueu, sempre foi contra essas investidas políticas do marido. Tanto que nunca o acompanhava em suas andanças atrás de votos. E quanto a participar de comício, nem se fala! Zaqueu era o único político que não contava com a esposa em suas aparições em cima do palanque. Mas ele sabia que era importante o apoio da mulher para transmitir confiança e seriedade aos seus eleitores e combinou com dona Raimunda para que os dois fossem juntos ao comício de encerramento daquela campanha. O evento ocorreu na cidade de Várzea Alegre exatamente onde hoje é o terminal rodoviário. A esposa de Zaqueu subiu no palanque toda acanhada e, esbanjando timidez, achou por bem ficar quase escondida por ali. Mas quando o locutor Sousa Sobrinho entregou o microfone ao falante Zaqueu, ele puxou sem muito jeito dona Raimunda para o centro do palco e mais que depressa comemorou com os que ali estavam o milagre da presença de sua mulher naquela festa.. E tratou ainda de apresentá-la ao público.

– Meus amigos essa é dona Raimunda, minha mulher, e estou muito feliz porque essa é a primeira vez que ela trepa num palanque mais eu.

O povo, naturalmente, caía na gargalhada com essas tiradas do divertido Zaqueu.

Embora a esposa nunca acreditasse que a vida política do marido tivesse futuro e que aquela campanha não ia levá-lo a lugar nenhum, Zaqueu se mantinha animado e praticamente certo da vitória. A confiança de que, em breve, ele ocuparia uma cadeira na Câmara Municipal, só aumentou depois da realização de um comício em sua casa no sítio Timbaúba. Estima-se que aproximadamente cinco mil pessoas estavam presentes ao ato público. Ora, naquela época, para se eleger um vereador em Várzea Alegre só bastavam cerca de 200 votos. Ali tinha gente para eleger uns vinte. E, claro, Zaqueu achou que ia tirar mais votos do que mesmo o candidato a prefeito de seu partido – Antônio Rolim. Quando chegou a vez de proferir sua fala o candidato quis tirar a dúvida e perguntou quem ali votava nele para vereador. Foi um alvoroço e todo mundo levantou a mão indicando que sim, votava em Zaqueu.

Depois do comício ele passou a cantar vitória antecipada, mas dona Raimunda, sempre muito sensata, tratou de jogar água fria na felicidade clandestina do marido.

– Zaqueu deixa de ser besta. Esse povo todo não vota em tu não!

Com calma Zaqueu se aproximou da mulher, colocou a mão direita no ombro dela e disse:

– Raimunda a besta aqui é tu. Eu sou é o cavalo.

No final das contas, dona Raimunda tinha razão. As urnas mostraram-se um fiasco tanto para Zaqueu que não conseguiu seus míseros duzentos votos para se eleger vereador, quanto para seu candidato a prefeito Antônio Rolim que foi derrotado pelo opositor João Francisco que foi eleito com 6.843 votos.

Ah, pra encerrar. Zaqueu costumava pegar o microfone durante esses comícios e não queria mais soltar. Dizia repetidamente “Vote neu, vote neu”. O locutor, quase sempre a figura do radialista Sousa Sobrinho, tentou ajuda-lo com uma rápida assessoria parlamentar:

Zaqueu não é “vote neu”, é vote em mim.

E o velho e bom candidato a vereador, Zaqueu Guedes, prontamente repreendeu o comunicador.

– O candidato aqui é eu. Você não é candidato a nada.

Jurani Clementino – Várzea Alegre – CE

18 de julho de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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