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Jurani Clementino: Um quadro pendurado na parede

Jurani Clementino. Publicado em 8 de novembro de 2019 às 11:29

Retratos na parede das casas sertanejas contam histórias, narram acontecimentos, eternizam momentos vividos por famílias inteiras. Pintados à mão, estão todos lá. O pai, a mãe, os irmãos… congelados numa imagem. Sérios, sisudos, carregando a expressão forte do povo sertanejo. Aquelas famílias numerosas. Aquele anfitrião, uma primeira foto, ainda em preto e branco. Registro de um momento familiar. Uma imagem que conta muito sobre aquela família. Os que já morreram, os que migraram, a idade que todos tinham, o tipo de roupa, o corte de cabelos, os penteados, a pose, tudo é história. Muitos que ali foram fotografados, já não se reconhecem mais diante daquele quadro. Outros se emocionam ao lembrar aquele momento ali sacralizado. Choram pelos que já foram, sorriam dos que ficaram e não escaparam da mão perversa e inevitável do tempo. O inexorável tempo. O pior de todos os carrascos. O mais cruel de todos os ditadores. 

Não é apenas uma foto, trata-se de um momento único. Aula de fotografia para as novas gerações. Como eram feitas aquelas fotos, aquelas pinturas. Tudo é digno de interpretação e vale a sensibilidade diante da arte. É preciso sentir, imaginar aquele dia, o que passava na cabeça de cada um. As condições em que foi feita aquela foto.! Quanto teria custado? Quem pagou? Quantos outros momentos vividos por aquela família não puderam ser colocados num quadro de parede. Tempo em que se vivia praticamente no anonimato. Tudo era vivido e sofrido longe dos holofotes. Escapara aquela foto estampada na parede, suspensa num prego, tomada pelas teias de aranha, coberta de poeira. Mas resistente. Apagado e desbotado pelo tempo. Precisando de retoque. Algo que reavive aquele momento remoto. Levam ao restaurador. Volta nova. Cores que dão vida. Vida que não existe mais. Memória que resiste. Assim é o trabalho de manutenção das memórias passadas. Um diálogo permanente entre presente e passado. Um passado que insiste em manter-se presente. Ali, naquele quadro emoldurado pendurado na parede da sala de estar. Quadro da casa da avó. Um estar do ontem, do outro século, quando a fotografia nem existia da maneira nítida de hoje. Com sua cópia fiel de um enquadramento do real. Realidade congelada.

Diante deles no enxergamos. Percebemos nossas origens. Ficamos cara a cara com o que há de mais original da gente mesmo. Registro dos nossos antepassados. Diante deles refletimos sobre a nossa própria existência. Aquilo que seremos amanhã. Aquilo que os nossos foram ontem. O presente cumprimentando o passado. Passado que se faz presente naquele quadro pendurado na parede envelhecida da casa de minha avó.

Jurani Clementino – Campina Grande – PB 08 de novembro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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