Jurani Clementino: Travessia

Jurani Clementino. Publicado em 1 de janeiro de 2021 às 7:57

Estamos completando a travessia. Isso mesmo, chegamos em 2021. Surfamos numa canoa furada pelo tenebroso ano de 2020. Muitos caíram no mar e foram engolidos pelas ondas. Desapareceram na imensidão do oceano e descansaram nas profundezas daquelas águas salgadas. O gosto amargo do ano que passou começou a ser sentido exatamente em março. Eram as águas de março como diria Tom Jobim. A partir dali tudo ficou tão incerto que os próximos nove meses se prolongaram por uma eternidade. O barco parou no meio do mar. Jogado à deriva. Alguns tripulantes se lançaram naquelas águas revoltas, outros se agarraram a botes salva-vidas quando a onda gigante bateu. Muitos não tiveram tempo de se apegar a nada e desapareceram no oceano.

Milhares de corpos foram jogados ao mar sem tempo para despedidas. Um vírus atacou a tripulação. Ainda há muitos enfermos. Outros com sequelas, acamados, recebendo cuidados médicos. A praga atingiu quase todos os nossos homens e mulheres que navegavam nesse barco. É uma embarcação gigantesca. E nela vivemos meses de completa angústia e desespero. Todas as autoridades que tinham ali embarcados, uniram forças para identificar o problema e tentar evitar maiores danos. Olhamos para a amplidão do universo dia e noite. Só avistamos o breu da noite e a luz cortante refletida nas águas do mar durante o dia.

A gente não sabia se havia continente ali por perto, uma ilha ou qualquer pedaço de terra firme onde pudéssemos atracar. Seguimos perdidos. A cada dia, uma nova tempestade. A combinação de vento forte, raios e trovões, fazia com que as ondas tomassem proporções gigantescas… E a gente lá, tentando, de alguma forma, sobreviver. Contando os dias e as horas para que algum pássaro surgisse no céu trazendo preso ao bico, um galho verde de uma árvore qualquer. Olhávamos para um horizonte infinito, cheio de luz quente, em busca de esperança. Passaram dias, que somaram meses, que quase formaram um ano. E o barco lá, à deriva. E nós, passageiros, evitando se jogar nas águas profundas, temendo um perigo maior. Tudo, naquele barco, era um grande perigo.

Nós, sobreviventes, só queríamos terra firme. Sonhávamos com um pedaço de chão cheio de mato, animais, ar puro, vida brotando por todo lado, protegido de uma peste, de um vírus. A procelosa tempestade de Camões. Depois de muito tempo, muitas mortes outros tantos sobreviventes… noites, dias, madrugadas de profundas incertezas… acho que estamos pertos. Saímos da boca do furacão e parecemos navegar por águas esperançosas. Chegamos a 2021. O oceano chamado 2020 precisa ser apagado, esquecido… contado apenas em livros de suspense e aventuras. Sonhamos com um novo tempo. Que nessas águas desse novo ano o barco siga calmamente até o continente. Que em terra firme sejamos recebidos com regozijo e incontida alegria.

Já é possível sentir uma brisa úmida e logo logo um pássaro branco, sobrevoará o nosso barco. Estamos cansados, mas esperançosos. Porque estamos vivos, porque é ano novo. Porque acreditamos que vamos chegar lá. Porque isso tudo vai passar. E o isolamento, a solidão, as tristezas, angústias e amarguras vividas juntos, dentro desse barco jogado ao mar, vão virar histórias, memórias, contos…. seguimos ainda no barco, velejando…

Tivemos um privilégio que foi negado a milhares de pessoas: atravessamos 2020. Um ano que nos ensinou coisas grotescas. Que nos disse que amar é estar longe. E fomos ficando longe de quem sempre nos quis por perto. Nos esquivando dos abraços. Nos anulando dentro de nós mesmos. Nos disseram que nesse barco de 2020 isso era amor. Que precisávamos amar. Estranha, mas necessária, forma de amor. E desde março de 2020 que ele vem nos ensinando isso a duras penas. Foi difícil reaprender a amar. É difícil amar assim. Nós, tão absolutamente calorosos, intensos entregues… pisamos no freio dos sentimentos, reinventamos e readaptamos nossas manifestações de afetos. Que o barco de 2021 chegue logo a terra firme e que nos traga menos emoções que o de 2020.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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