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Jurani Clementino: Torto Arado – um olhar sobre o Brasil profundo

Jurani Clementino. Publicado em 26 de fevereiro de 2021 às 11:13

Atualmente, um dos trabalhos literários de grande repercussão, por parte da crítica no Brasil, tem sido o livro “Torto Arado”, do baiano Itamar Vieira Júnior. Lançado em agosto do ano passado, o romance que, embora recém-saído da gráfica, já tem tudo para ser chamado de clássico, é atemporal, possui uma linguagem envolvente e o enredo surpreende o leitor. Não por acaso, o livro foi vencedor do Prêmio Jabuti 2020, na categoria “Romance Literário” e já vendeu mais de setenta mil exemplares até semana passada.

A indicação para ler “Torto Arado” veio de um amigo que dizia: “Jurani você vai gostar desse livro, tem muito a ver com o que você escreve e também com a forma como você conta as historias lá do sítio”. Adquiri o livro na mesma semana. E quando comecei a ler o primeiro capítulo fui tomado por um desejo avassalador de devorar aquela história em questão de horas. Resultado, em menos de 24h eu, completamente anestesiado, chegava a página 262 do romance de Itamar.

Embora esteja classificado no gênero romance, Torto Arado é muito mais do que isso: é parte da história do Brasil. Um país com cicatrizes profundas provocadas pelo atraso, pelos mais variados tipos de violência, pelo exercício contínuo de dominação, pelo coronelismo, pela exploração de trabalhadores, pelo esquecimento de grupos historicamente marginalizados e excluídos… Itamar situa o seu romance nos rincões de uma Bahia com heranças afro, mas podia ser um relato humano sobre as condições de vida dos trabalhadores das zonas canavieiras do nosso litoral, dos empregados/moradores/meeiros de fazendas no interior da Paraíba ou do Ceará, dos brasileiros (especialmente os cearenses) que foram para o Norte durante o Ciclo da Borracha, enfim.

Para mim, o que ficou muito vivo, durante toda leitura, realizada num fôlego só (muitas vezes perdendo o fôlego, inclusive) foi a história das Ligas Camponesas. Donana, Bibiana, Belonísia, Zeca Chapéu Grande e Severo, podem muito bem ser João Pedro, Elizabeth Teixeira, Nego Fuba (João Alfredo Dias), Pedro Fazendeiro (Pedro Inácio de Araújo) e Margarida Maria Alves. A organização dos sindicatos, o enfrentamento dos “donos da terra”, a luta por melhores condições de trabalho e moradia, o acesso à escola.. tudo isso está retratado no romance de Itamar.

Naturalmente que o autor, por sua trajetória de pesquisa e escrita, explorou uma representação narrativa dos descendentes de escravos, mas a luta pelo direito a terra e a moradia, no Brasil, não é um problema único e exclusivo desses povos. As conexões entre passado e presente, urbano e rural, tradição e modernidade, são construídas a partir de um texto leve, fluido e envolvente. O livro está dividido em três partes em cada uma delas possui um narrador diferente: duas mulheres e uma espécie de espírito encantado. Olhares distintos para situações análogas.

Muita coisa me surpreendeu nesse livro, e, sim, consegui ver também muita semelhança com as historias que conto. A coragem de mulheres sertanejas e sua relação com a terra e com a família, as brincadeira de crianças nos terreiros empoeirados, a relação do nordestino com a religiosidade, as distancias percorridas a cavalo, a chegada da luz elétrica, a televisão alimentada pela carga de uma bateria de caminhão, as salas lotadas de televizinhos, as superstições…

Trata-se da história de um país que celebra cotidianamente a existência de um progresso vazio. Que persiste com num passado escravista/coronelista/burguês sempre batendo a nossa porta, nos assustando e fazendo com que, às vezes, a gente acione forças sobrenaturais para nos ajudar.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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