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Jurani Clementino: Tornei-me professor, mas nunca deixei de ser aprendiz

Jurani Clementino. Publicado em 16 de outubro de 2019 às 13:00

Nasci num contexto que me oferecia duas opções: a enxada ou caneta. Experimentei das duas. Da primeira aprendi, muito cedo, que a vida não era nada fácil. Acordar cedo, preparar as ferramentas de trabalho, ir para o roçado e acreditar que o inverno renderia uma boa colheita. Dividi a atividade de agricultor com o ofício de estudante. Se meu pai era do roçado, minha mãe era professora. Permaneci na roça, mas fui tomando gosto pelas palavras escritas. Gostei tanto e, de tal forma, que hoje faço delas a matéria prima do meu ofício. O destino me fez professor ainda em Várzea Alegre. Comecei aprendendo com os mais velhos. Eu era um adolescente que inventei de dar aula para uma turma de Jovens e Adultos. Aprendia mais do que ensinava. Depois resolvi investir na formação profissional. 

Inicialmente, tornei-me jornalista, mas depois de seis anos de redação, achei que minha contribuição na área tinha sido suficiente. Voltei à sala de aula como professor. Agora em contato com os jovens do Ensino Superior. Aos 27 anos eu entrava em sala de aula de uma faculdade completamente inseguro. Morrendo de medo do que me esperava. Nunca tive medo de ir pra roça, acho que tive preguiça, algumas vezes. Mas encarar aquelas dezenas de aluno me deixava bastante temeroso. Cada aluno com sua história de vida, com seus sonhos, desafios, medos… Eu descobri que não era apenas professor. Eu era um incentivador de projetos de vida, de desejos pessoais e coletivos. Fui adorando aquilo. Era um medo que me estimulava a seguir. 

Dei aula em turmas de graduação e pós-graduação. Circulei entre os estados da Paraíba e Pernambuco. Entre instituições públicas e privadas. Entre alunos leigos e alunos professores. Compartilhei conhecimentos em Caruaru, Campina Grande, João Pessoa, Princesa Isabel…, com dezenas de disciplinas que iam de teoria, metodologia e práticas. Em cursos que iam de jornalismo a pedagogia. Em aulas durante a semana e nos finais de semana também. A vida foi me ensinando a aprender e a entender os desafios dessa profissão. Foi me tornando carpinteiro do ofício pedagógico. Foi me fazendo mais tolerante. Foi a vida e os livros quem me disseram que ensinar não é transmitir conhecimentos. Que aluno não é um receptáculo vazio. Que nós não estamos acima de todos. Que ser professor é o exercício cotidiano da tolerância, da paciência, da renúncia. 

A gente aprende com cada turma nova a cada semestre, com cada aluno bonzinho ou traquino. A gente aprende a dizer que não sabe tudo. Assim, na maior cara de pau.  Tornei-me professor, mas nunca deixei de ser aprendiz. Aprendo com os novos e com os velhos, com os doutores e com os analfabetos, com quem muito viveu e com quem quase nada sabe da vida, com quem é da cidade e com quem gosta da vida simples do campo. Para aprender é preciso curiosidade e humildade. O professor prepotente, arrogante e dono da verdade, desconhece a própria profissão. 

A sala de aula é um espaço de trocas. Não deve ser uma prateleira de supermercado aonde os educandos vêm, escolhem e compram aquilo que desejam. Sala de aula é espaço de disputa, mas não deve ser lugar de opressão. Tenho a sensação de que a esperança vai vencer opressão. Estou há 16 anos exercendo essa vocação para que fui convocado. Não troquei a enxada pela caneta. Se preciso ainda sei manejar a terra. Cuidar da plantação e colher os frutos. Acredito em tudo que faço é não quero que as forças políticas, econômicas e sociais tirem de mim a esperança. Hoje me divido entre três instituições de ensino superior. Muitas vezes chego cansado, fatigado, esgotado. Mas esse contato com os jovens cheios de sonhos e desejos, me inspiram, me alimentam e renovam o meu espírito. Não sei até quando. Feliz dia.

Jurani Clementino

Campina Grande – PB, 15 de outubro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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