Jurani Clementino: Tempo, tempo, tempo, tempo

Jurani Clementino. Publicado em 6 de maio de 2021 às 9:34

Esses dias, quando estive no Ceará, minha avó, de 93 anos, queria ir visitar a construção do cemitério comunitário que estão fazendo lá no sítio e depois pediu para ir até a parte mais alta do sítio onde foi colocada a estátua do Padim Ciço. Fui com ela. Passamos pela construção e seguimos até a estátua do padre que fica no topo de uma serra.

Chegando lá, parei o carro, abri a porta, peguei no braço dela e saímos caminhando a pé pela estrada. Na verdade ela viu uma antiga aroeira que tinha a margem da estrada e quis ir andando até lá.

Fomos os dois de mãos dadas. Ela explicando a história da construção das cercas, quantas braças de terra pertenciam ali a beltrano, sicrano; sobre o terreno acidentado, a história de um incêndio ocorrido há dezenas de anos que havia destruído tudo ali, dizendo que tinha feito muito almoço, botado a panela de comida na cabeça e trazido até aquela região para os trabalhadores; falou ainda dos primeiros caminhos que abriram na mata para as pessoas transitarem de um sítio a outro, o movimento dos moradores entre o Queixada, a Unha de Gato e o Umari dos Carlos, Riacho do meio…

Lá pelas tantas, quando a gente já vinha voltando, ela disse com ar de tristeza e lamento:

– Hoje tá tudo tão diferente, meu filho.

E eu, concordando com ela, inventei de dizer:

– Verdade, as coisas mudam muito né, Madrinha?

Nessa hora ela respondeu com uma rapidez impressionante.

– As coisas e a gente. A cabeça da gente, o conhecimento da gente, tudo muda né!?

Eu achei aquilo de uma reflexão profunda e de uma verdade absurda. Era como se estivesse assistindo a uma aula de pós-graduação em sociologia e na disciplina cultura e identidade o professor me dissesse: cuidado quando você vai julgar a mudança do outro. Você também muda. Porque o comum é a gente não admitir que nós mudamos, mas que as coisas mudam. O tempo muda, os outros se transformam, mas que a gente permanece lá, intocável. Esperei que ela concordasse que os tempos tinham mudado, que a vegetação era outra, que as pessoas mudaram, que tudo estivesse diferente, mas que ela, próxima de completar um século de vida, permanecia a mesma.

Quebrei a cara. Mas fiquei super feliz com aquela percepção sobre a vida. Aos noventa e três anos de idade.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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