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Jurani Clementino: Rezadeira convertida ao protestantismo

Jurani Clementino. Publicado em 30 de janeiro de 2020 às 10:37

Dona Betiza Matias era uma rezadeira de mão cheia que, por muitos anos, morou numa imensa casa de taipa entre os sítios Baixio Verde e Medeiros. Recebia, constantemente, em sua residência, crianças com “quebranto” e “mal olhado”, jovens e velhos com “peito aberto”, gente de toda sorte com uma pluralidade de doenças, bastante comuns para aquela época. Muito atenciosa e paciente ela então pedia que aquele visitante sentasse numa cadeira, ou num banco de madeira que havia por perto, ia até o quintal da cozinha, quebrava uns pequenos galhos de uma planta qualquer e voltava concentradíssima para realizar aquela espécie de “cura espiritual” naquele doente. Completamente concentrada a rezadeira, ou benzedeira, como muitos chamavam, pronunciava, por alguns minutos, palavras inaudíveis e com aqueles galhos, com folhas verdes na mão, repetia o sinal da cruz tocando com o ramo no corpo do paciente. Não sei se pelo calor da própria região, se pela repetição do sinal da cruz… o fato era que em questão de minutos aqueles ramos ficavam murchos. Mas se dizia também que quanto mais forte fosse a doença, mais depressa aqueles galhos verdes secavam. Como se a enfermidade fosse automaticamente transferida para os ramos.

As rezadeiras fazem parte da cultura popular nordestina. Elas estão presentes no imaginário coletivo e no cotidiano de muitas pessoas. Aprendem as práticas e rituais de cura através dos mais velhos, uma tradição que vem sendo transmitida há milhares de anos. Nas casas das rezadeiras sempre encontramos elementos que estabelecem essa conexão com os rituais sagrados. Existe por ali um rosário, uma garrafa com água benta, sal grosso, imagens de santos espalhadas pelas paredes e até de um “preto velho” que remete mais a divindades protetoras de origem africana. Trata-se de um sincretismo religioso que conecta o Brasil, a Europa e a África. 

Mas, para além desses rituais de cura que, naturalmente, me chamavam a atenção, outra coisa também me deixava curioso ao chegar à casa de Dona Betiza: eram aquelas paredes de taipa completamente tomadas por fotografias coloridas recortadas de jornais. Ainda me lembro: tratava-se de encartes de periódicos impressos com as imagens coloridas dos personagens das novelas da época. E lá estava o ator Tony Ramos, com seus vinte/trinta anos, esbanjando charme e elegância na novela Bebê a Bordo. Foi na parede de barro da casa de dona Betiza que também vi, pela primeira vez, a jovem atriz Malu Mader, interpretando a personagem Duda na novela Top Model de 1989. O galã Edson Celulari em Que rei Sou Eu e a juventude de Felipe Camargo em cena na novela “Despedida de Solteiro”.

Fico aqui imaginando a razão para que dois universos aparentemente tão distantes pudessem está ali, lado a lado. Os rituais sagrados de dona Betiza com suas rezas, curas, santos e elementos religiosos e o universo das estrelas de cinema estampadas ali na parede. Hoje diria que este último tratava-se de um esforço daquelas jovens, filhas da rezadeira, em dar mais alegria àquelas paredes tristes, tortas e assimétricas da casa de taipa da mãe. Talvez fantasiar um pouco aquela realidade quase que diariamente marcada pela visita de pessoas com problemas do corpo e da alma. Sonhar em um dia, quem sabe, também se transformar num artista de cinema. 

Para minha alegria, fiquei sabendo que a Dona Betiza Matias da Silva, hoje com 79 anos, reside no sítio Juazeirinho. É mãe de sete filhos, cinco homens e duas mulheres e casada com seu João Francisco Diassis Silva, de 86 anos. Uma última informação importante é que atualmente Dona Betiza não é mais rezadeira. Converte-se ao protestantismo e frequenta, quase que diariamente, a Igreja Assembleia de Deus. 

Jurani Clementino – 

Campina Grande PB 

28 de janeiro de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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